Capítulo 52
A Véspera da Guerra (3)
— Ouvi dizer que os guardas de Hiveden se renderam.
No esconderijo subterrâneo da Ordem de Huginn, Dilmond e Anya estavam conversando sobre os acontecimentos ocorridos na reunião do conselho naquele dia.
Juan também estava no esconderijo, sentado ao lado dos comandantes da Ordem de Huginn, mas ninguém reclamava de sua presença; Ras havia aprovado.
Ras disse apenas que Juan era “um homem confiável”, mas tinha sido o suficiente para a Ordem de Huginn aceitá-lo.
— Isso vai abalar ainda mais o conselho.
— Bem, ninguém quer ser pisoteado pelos Pés do Imperador. Ouvi dizer que a Ordem do Corvo Branco ainda está se preparando para a guerra, eles estão pressionando mesmo o conselho.
— Eles não disseram que dariam ao conselho tempo para decidir até amanhã?
— Sim, mas eles estão basicamente os pressionando para que se decidam antes disso. A Ordem do Corvo Branco também está com pouco tempo.
A Ordem de Huginn já tinha espiões no conselho governante de Hiveden. Na verdade, um dos membros do conselho era associado da Ordem de Huginn. Através dele, a Ordem recebeu detalhes sobre tudo o que havia sido discutido na reunião do conselho e descobriu que o conselho estava inclinado a se render.
— Acho que não entendi muito bem. Por que a Ordem do Corvo Branco está cercando a cidade onde os cidadãos residem e se preparando para aniquilá-los apenas para capturar algumas pessoas da Ordem de Huginn? A Ordem do Corvo Branco não pertence ao exército imperial? — Perguntou Juan.
— Sendo mais exato, são tropas que pertencem à Igreja. Mas são tratados muito melhor do que o exército imperial, eles até têm autoridade para solicitar um recrutamento obrigatório. — Respondeu Anya agradavelmente. — Ah, mas é claro que não nos arrependemos, já que fizemos o que tínhamos que fazer para ajudar Juan. Sir Ras já havia sido rotulado como um dos Seis Apóstatas envolvidos no assassinato de Sua Majestade, então o império não se importa com os sacrifícios resultantes do processo de captura dele. Em termos do número de pessoas que sacrificaram, Barth Baltic seria muito pior que a Ordem do Corvo Branco.
Juan balançou a cabeça. Ele se perguntava onde havia errado com Barth para que ele se tornasse o que havia se tornado. Embora ele tenha derrotado muitos exércitos semi-humanos durante a guerra contra os deuses, nunca liderou um massacre; o desaparecimento do deus que os protegia muitas vezes fazia com que os exércitos caíssem no desespero e perdessem a vontade de lutar.
Mas os cidadãos de Hiveden eram diferentes desses exércitos; eles já haviam sido subjugados ao império. O fato de Barth, o atual líder do império, estar disposto a massacrar seus próprios cidadãos, não lhe causava uma boa impressão.
— Tem alguma ideia de como lidar com esta situação, Juan?
— Não. Eu deveria ter?
— Bem, seria bom ter mais uma possível solução, já que morreremos como ratos presos numa ratoeira se não conseguirmos sair daqui. Talvez pudéssemos usar uma passagem secreta? Eu tinha uma, mas foi bloqueada.
Juan recordou brevemente do céu que tinha visto lá fora, parecia uma cúpula gigante formada por um fluxo dourado de luzes. Juan se lembrou de quando foi perfurado pela Lança de Ira de Arwain. A Lança de Ira não causou nenhum dano a ele, que pensou que poderia ser devido ao fato da lança estar imbuída de sua própria mana. Se estivesse certo, seria possível para ele usar sua mana no céu.
— Se é o poder do imperador que eles estão usando, talvez eu consiga fazer uma passagem secreta.
— Eu sabia! Sempre posso contar com Juan. Eu sabia que você poderia encontrar uma maneira de sair desta situação.
Juan se perguntou como ele era visto aos olhos de Anya. Juan nunca havia revelado que era o imperador para Anya, mas Anya parecia já considerá-lo alguém próximo de ser o imperador.
— Eu posso fazer uma se quiser. Mas é certo fazer isso? Todas as nossas forças em Hiveden acabarão sendo mortas. Seria um grande desperdício desistir de nossa fundação aqui.
— Seria um desperdício da fundação que construímos, mas a condição em que o senhor Ras se encontra é muito ruim. Além disso, você disse que nos ajudaria. Se compararmos os ganhos e perdas, seria mais benéfico desistirmos de Hiveden.
— Quem você acha que eu sou?
Juan perguntou a Anya ao saber que ela estava disposta a jogar fora Hiveden em troca de sua cooperação. No entanto, a resposta de Anya a essa pergunta, depois de muito pensar, não foi muito satisfatória.
— A encarnação da justiça que veio para destruir o império?
— Encarnação? E você se considera uma seguidora de Sua Majestade acreditando em tal coisa? — Dilmond disse olhando para Anya com desdém.
Anya foi a primeira a superar as habilidades de uma geração antiga desde que as gerações da ordem dos cavaleiros mudaram várias e várias vezes. No entanto, Dilmond estava bastante preocupado com seu comportamento frívolo e indisciplinado. Ele logo voltou a falar, mudando o assunto da conversa para a Ordem do Corvo Branco.
— De qualquer forma, a Ordem do Corvo Branco avançará independentemente da decisão do conselho de cooperar com eles ou não. Definitivamente seria melhor ter uma passagem secreta para escapar… Embora Anya diga que não se importa, não estou tão despreocupado. Afinal, como responsável por liderar a ordem dos cavaleiros, estou preocupado com algumas coisas; você sabe, como comida.
— Bem, é outono. Não conseguiremos sobreviver nas montanhas? — Anya perguntou.
— Para ser exato, é final do outono. Isso significa que o inverno está se aproximando. Seria difícil reunir comida suficiente para durar o inverno, a menos que bancássemos os bandidos. Se não nos prepararmos para isso…
『Não vamos sair de Hiveden.』
Anya, Dilmond e os outros imediatamente ficaram em pé ao ouvir a voz repentina. A única pessoa que permaneceu calmamente sentada foi Juan.
Cobrindo o rosto com o capuz do manto, Ras apareceu no corredor escuro. A voz composta por magia ecoou de dentro de seu crânio vazio.
『Não vamos desistir de Hiveden.』
— Eu não concordo, Ras — Disse Juan enquanto girava sua espada curta com os dedos, ainda sentado. — Aqueles desgraçados do conselho estão morrendo de vontade de entregar você e seus cavaleiros ao inimigo. E você ainda quer protegê-los?
『É a coisa certa a se fazer.』
— Parece que você não está entendendo, Ras. Suas tentativas de convencer o conselho não é a mesma coisa que salvar aquelas pessoas. Na verdade, é a mesma coisa que pedir para que eles morram por você. Do ponto de vista deles, eles só terão que lutar contra a Ordem de Huginn se cumprirem a Ordem do Corvo Branco para desistir de você. Mas se eles dessem as mãos a você, teriam que lutar contra todo o império.
Ras não respondeu porque sabia que Juan estava certo.
— Então por que você insiste em ser tão teimoso?
『Tenho um amigo que pode explicar por mim.』
Ras acenou para algum lugar. Um dos cavaleiros bateu na porta, e um homem magro usando um tapa-olho logo apareceu pela porta. O homem tirou o tapa-olho para ver Ras e colocou a mão sobre o peito para prestar homenagem.
— O nome dele é Opert e ele é nosso espião no conselho. Ele é o chefe dos contrabandistas. Embora tenhamos influência sobre todas as organizações de Hiveden, temos controle total sobre os contrabandistas. — Explicou o cavaleiro.
Opert cumprimentou Anya e Dilmond, mas estremeceu ao ver Juan. Mas ele logo cumprimentou Juan como se estivesse vendo seu superior, já que Ras estava tratando Juan da mesma forma que Anya e Dilmond.
— O que um contrabandista tem a ver com isso?
『Contrabandista é um título falso para mantê-lo sob disfarce, mas sua verdadeira identidade é a do vice-mestre da torre mágica.』
‘Um criminoso por fora, mas um mago por dentro, hein?’
Juan demonstrou curiosidade. Ele era um excelente espadachim, mas também era um mago de ponta. Era natural que seu professor fosse um mago. Na época, os magos da torre mágica eram bons aliados de Juan. No entanto, era difícil encontrar qualquer um deles agora, uma vez que a maioria deles eram tratados como criminosos, e o mesmo parecia se aplicar a Opert.
— Por que um mago está fingindo ser um contrabandista em Hiveden? — Perguntou Juan.
— Deixe-me explicar. — Obert começou a falar.
***
A atmosfera do conselho de Hiveden ainda estava caótica mesmo após o pôr do sol. Os faz-tudo estavam ocupados entrando e saindo do prédio para embalar itens caros e carregá-los até uma carruagem. Quando a carruagem ficava cheia, eles empacotavam o resto dos itens para transportá-los para algum lugar.
O objetivo deles era preservar o máximo que pudessem da fortuna que haviam acumulado até agora, já que não seriam capazes de continuar seus negócios depois que a Ordem do Corvo Branco os subjugasse. Embora ainda não tenha havido uma declaração formal, a maioria das pessoas que tinham boa consciência já se preparavam para a evacuação.
— Apressem-se e movam tudo! Vocês têm que terminar o trabalho até amanhã ao nascer do sol!
— Senhor Ardin, o que devo fazer com isso?
Um dos faz-tudo entregou a Ardin uma estátua de uma deusa desconhecida do tamanho da palma da mão. Era feito de um marfim precioso que não era encontrado no império, lindamente processado, o que tornava impossível saber seu preço. Os olhos de Ardin estavam em conflito. Ele queria ficar com o item, considerando a dificuldade que teve para colocar as mãos nele. Porém, deixando a fortuna de lado, sua vida estaria em risco se tal item herege fosse descoberto.
— Quebre ou queime. Não deixe nenhuma evidência de que eu o tive.
— Sim, senhor, certamente… — O faz-tudo respondeu em um tom arrependido, então sorrateiramente o colocou no bolso.
Ardin o viu colocando o item no bolso, mas não se importou; Pelo menos não seria ele o decapitado por causa da estátua, mas sim o faz-tudo. Se conseguissem sair de Hiveden em segurança, ele poderia simplesmente recuperá-lo.
— Qualquer item que a Ordem do Corvo Branco possa usar para nos acusar vai para a direita! Coloquem o resto dos itens à esquerda na carruagem! Além disso, sejam mais cuidadosos! — Ardin gritou.
— Você parece ocupado.
Ardin virou a cabeça para a voz surgida do além. Se perguntava quem poderia ser, já que todos que estavam próximos o suficiente dele para falar informalmente estavam fazendo seus próprios preparativos.
‘Quem diabos…?’
Naquele momento, o rosto de Ardin endureceu ao reconhecer a pessoa.
— Faz muito tempo que não nos vemos, senhor Ardin. Vim em nome da Ordem de Huginn. Eu gostaria de ter uma palavrinha com o conselho. — Disse Anya enquanto batia em seu ombro.
***
Todos no conselho pareciam estar de mau humor por terem sido interrompidos no meio dos preparativos. Mas eles não tiveram escolha senão responder ao apelo do conselho num momento tão caótico. Ninguém sabia o que poderia acontecer no minuto seguinte. Pela mesma razão, muitos guardas armados se juntaram à reunião do conselho, ao contrário da reunião que havia acontecido de manhã.
— O que está acontecendo, Ardin? Você sabe que todos estão ocupados.
— Já não concordamos em cumprir com a decisão da Ordem do Corvo Branco? Ou o capitão enviou outra mensagem?
Muitas perguntas foram feitas a Ardin, mas ele permaneceu sentado ansiosamente. Enquanto isso, os membros do conselho notaram a misteriosa mulher vestindo uma túnica preta parada ao lado de Ardin; um rosto desconhecido.
Quando estavam prestes a perguntar sobre sua identidade, a porta do salão de reuniões se abriu.
Duas pessoas vestindo o mesmo manto preto que a mulher entraram na sala – era um velho cavaleiro de cabelos e barba grisalhos e um homem que era cerca de três cabeças mais alto que os outros. A identidade deles não era conhecida, mas era óbvio que eram pessoas extraordinárias.
Logo alguém do conselho notou que todos aqueles que usavam as vestes tinham broches de corvo preto nos ombros.
— Os corvos…
Um murmúrio congelou o ar dentro do salão de reuniões. Assim que os guardas que enchiam o salão de reuniões perceberam sua identidade, sacaram suas armas.
A atmosfera rapidamente se tornou terrível, mas os cavaleiros da Ordem de Huginn não pareciam se importar nem um pouco.
Os cavaleiros da Ordem de Huginn quebraram o silêncio mortal avançando com o som crepitante de passos, como se estivessem andando sobre gelo fino. Assim que pararam na frente de Ardin de maneira relaxada, o homem alto olhou ao redor.
O capuz estava profundamente colocado sobre sua cabeça, então eles não podiam ver seu rosto. No entanto, todos no salão de reuniões puderam sentir o cheiro incomum vindo dele e logo reconheceram o que era. Era um cheiro distante da vida; era o cheiro da morte.
A mulher que estava ao lado de Ardin caminhou até o centro do salão de reuniões e abriu a boca para falar com uma atitude alegre.
— Obrigada, senhor Ardin, por me dar esta oportunidade de encontrar todos os membros do conselho. Todos, todos vocês estão associados a nós, mas acredito que é a primeira vez que nos encontramos pessoalmente. Não vou me apresentar porque aposto que já me conhecem pelo nome “Anya”.
Ninguém do conselho respondeu a Anya, mas olharam para Ardin, que os havia enganado. Mas Ardin não tinha outra escolha se quisesse poupar sua vida.
— Por favor, não culpem o senhor Ardin. Se quiséssemos nos encontrar com qualquer um de vocês individualmente, tenho certeza de que nossos métodos teriam sido… bem, mais privados e violentos.
Os membros do conselho não puderam deixar de se convencer ao ouvir as palavras que Anya disse com um sorriso. Nenhum deles queria que a Ordem de Huginn lhes fizesse uma visita no meio da noite.
À medida que a atmosfera do salão de reuniões se inclinava para uma conversa pacífica, os subordinados de todas as organizações baixaram as espadas, aliviados. No entanto, ninguém embainhou a arma.
— Muito bem, parece que todos estão prontos para conversar. Então vamos começar a reunião do conselho sobre a situação atual de Hiveden.