Capítulo 61
Por Trás da Capa (1)
As Chamas de Sua Majestade ardiam cada vez mais intensamente. Ethan decidiu que, se o tempo não estivesse a seu favor, deveria atacar Ras o máximo possível. À medida que as chamas envolviam o corpo de Ethan, elas continuavam a queimar com seu corpo como combustível. Quase parecia que Ethan estava balançando chamas em vez de uma espada agora, devido ao tamanho que as chamas tinham alcançado.
As Chamas de Sua Majestade já haviam invadido metade da cabeça de Ethan, e seu cabelo comprido já havia sido queimado até ficar completamente crocante devido ao calor.
Ras estava certo de que Ethan se transformaria em cinzas por conta própria a qualquer momento.
Nesse momento, as chamas de Ethan roçaram mais uma vez o canto da escuridão de Ras.
Isso fez Ras sentir uma estranha energia dentro de seu corpo. Antes mesmo de encontrar a fonte da sensação estranha, a escuridão que envolvia seu corpo inchou. Ras ficou chocado ao perceber o que estava acontecendo.
‘Nigrato!’
As Chamas de Sua Majestade estavam danificando o selo que Ras havia colocado em Nigrato. O poder de Nigrato que começou a vazar do selo penetrou instantaneamente no corpo de Ras. Para conter completamente o poder de Nigrato de ser liberado, Ras não teve escolha senão focar toda sua atenção em si mesmo momentaneamente. Ras vacilou e parou de se mover por um segundo, mas um cavaleiro experiente como Ethan não perdeu esse curto segundo e aproveitou sua oportunidade.
— Ras Raud! — Rugiu Ethan.
Ethan balançou sua espada de maneira mais precisa e impiedosa, quase como se estivesse possuído pelas chamas. Sem um único erro, a espada de Ethan perfurou precisamente o centro do corpo de Ras. Com um som de colisão, o Poliedro Indefinido se despedaçou.
— Nãããão! — Gritou Anya.
Ao mesmo tempo, as chamas queimaram ferozmente enquanto envolviam a escuridão.
***
— Ras Raud!
Ras ergueu a cabeça ao ouvir seu nome. Antes que percebesse, já estava de pé em um terreno branco e seco. Ras percebeu um homem de cabelos brancos o encarando com ódio e repulsa nos olhos. Ao sentir a hostilidade furiosa em sua direção, ele ergueu a espada para se proteger. A mão que segurava a espada estava intacta, com pele e carne ainda presentes.
‘Ah. Me lembro deste momento.’
Não demorou muito para Ras recordar algo. Era o dia em que a Ordem de Huginn fora emboscada pela Ordem do Corvo Branco pela primeira vez. Naquele dia, Ras havia dividido seus cavaleiros em grupos para comandar a retirada. Como resultado, dez de seus camaradas, que haviam sido nomeados cavaleiros por Sua Majestade, tinham morrido. Devido aos sacrifícios dos camaradas com quem Ras compartilhara vida e morte, a Ordem de Huginn e Ras conseguiram manter seu poder e fugir.
Dentro da Ordem do Corvo Branco, havia um Templário que perseguira Ras sozinho. Ele era o primeiro capitão da Ordem do Corvo Branco. Antes de se tornar o capitão da Ordem do Corvo Branco, ele fora membro da Guarda Imperial. Após o assassinato de Sua Majestade, a Guarda Imperial foi tratada com o máximo desrespeito. O capitão da Guarda Imperial foi executado sob a acusação de conspirar com os assassinos, enquanto o restante da Guarda Imperial se dispersou por todo o império, exceto alguns poucos.
Os sobreviventes fizeram de tudo para recuperar sua honra, independentemente dos meios, depois de serem rotulados como traidores. Ficaram obcecados em eliminar os traidores e tentaram desesperadamente encontrar os envolvidos no assassinato de Sua Majestade. Ras era o alvo principal. Embora Ras tentasse provar sua inocência, eles não se deram ao trabalho de ouvi-lo.
No entanto, Ras não queria culpar pessoas cujos nomes nem sequer se lembrava; ele já as havia matado. Naquele dia, Ras matou o primeiro capitão da Ordem do Corvo Branco para vingar seus camaradas.
Mesmo enquanto morria, o primeiro capitão da Ordem do Corvo Branco cravou sua espada no peito de Ras, ao mesmo tempo em que sorria mesmo ao dar seu último suspiro – era um sorriso estranho que Ras nunca esqueceria.
— Ras Raud!
Ras virou a cabeça para a fonte da voz, e a lâmina de uma lança se aproximou de seu rosto. Ras mal conseguiu empurrar a lança para trás com sua espada, sua mão que segurava a espada mostrava ossos brancos.
Ao mesmo tempo, a cavaleira novamente cravou sua lança em direção a Ras.
Ras podia se lembrar desta cena. As lesões infligidas pelo primeiro capitão da Ordem do Corvo Branco estavam consumindo o corpo de Ras. A Ordem de Huginn estava mais fraca do que nunca, mas Ras não podia desistir dela pelo bem dos sacrifícios de seus camaradas mortos.
Então, Ras absorveu a essência de Nigrato, o deus da morte, que havia sido um antigo inimigo seu. E assim, ele se tornou a encarnação de Nigrato.
— Então você finalmente desistiu de sua vida como humano, Ras!
A cavaleira ferozmente cravou sua lança em Ras.
Ras mal se esquivou de seu ataque. E imediatamente lembrou quem era sua oponente; ela era uma cavaleira que tinha virado cavaleira quase ao mesmo tempo que Ras. Ras se recordou de ter aulas de esgrima e táticas com ela, sem mencionar lutar juntos como equipe em uma batalha. Seus cabelos, que eram tão vermelhos quanto o fogo, agora estavam meio brancos.
Ela era a segunda capitã da Ordem do Corvo Branco.
Ao olhar para o rosto de sua antiga colega cheio de repugnância e ódio, Ras pensou ter envelhecido demais. Se sentiu cem anos mais velho, não se lembrava do nome dela, pois a havia matado também.
Ras decapitou a segunda capitã da Ordem do Corvo Branco. Embora sua cabeça tenha caído do corpo, ela continuava o encarando. Ras não podia evitar o olhar dela. Mesmo que Ras não quisesse, observou sua boca se abrir e fechar para dizer algo.
— Traidor.
A última palavra que ela deixou para trás fermentou profundamente em seu coração. Era mais letal do que qualquer lâmina.
— Ras Raud!
Foi o terceiro grito que Ras ouviu. Ras vasculhou sua memória para tentar entender em que situação estava desta vez, enquanto olhava para a espada flamejante que estava cravada em seu peito.
O grito penetrante de Anya e o grito alto de Dilmond, que quase soava como se estivesse vomitando sangue, podiam ser ouvidos.
Somente então Ras percebeu tardiamente que estava de volta à realidade.
— Tirem aquele desgraçado de perto dele! — Dilmond gritou, cuspindo sangue, mas não havia ninguém que pudesse se aproximar de Ras e Ethan.
No momento em que a espada perfurou o peito de Ras, uma rajada de vento feroz soprou, borrando a visão de todos. O vento soprava com força suficiente para quase parecer como facas cortando a pele. Ethan, sendo o mais próximo da fonte do vento, quase foi mutilado.
— Raaaaassss!
Apesar desse vento, Ethan não largou sua espada e a cravou mais fundo no peito de Ras.
Ras olhou para Ethan, o jovem capitão da Ordem do Corvo Branco. Ele observou aquele capitão imaturo e arrogante, e pensou em como os tempos haviam mudado completamente.
Esse jovem cavaleiro nunca havia sequer conhecido Sua Majestade, nunca havia recebido seus comandos diretos, nem havia lutado ao lado de Sua Majestade contra o inimigo.
No entanto, ele pensava que a lealdade de Ethan não era nem um pouco inferior à sua própria.
Ras não conseguia discernir onde as coisas tinham dado errado, nem sabia quem estava louco. Ras já havia se quebrado há muito tempo, tanto mental quanto fisicamente. Antes de desmoronar completamente, ele havia feito sua última tentativa de assassinar Barth Baltic, mas falhara até mesmo nisso. Após seu fracasso, Ras não tentou fazer mais nada além de manter sua existência.
‘Acabou para mim.’
Ras sentia a morte se aproximando. Ele podia sentir a loucura de Nigrato e ouvir sua risada. Era impossível para Ras controlar o poder de Nigrato por mais tempo. As Chamas de Sua Majestade se espalharam pelo corpo de Ras.
Mas, naquele momento, uma escuridão ainda mais poderosa do que as Chamas de Sua Majestade os envolveu.
Ethan abriu bem os olhos, encarando o espírito negro, foi a última coisa que ele viu.
Num instante, a energia de Nigrato invadiu o corpo de Ras.
Ras se lembrou dos capitães anteriores da Ordem do Corvo Branco que o haviam esfaqueado no passado. Embora isso tivesse acontecido há muito tempo, não parecia. O passado e o presente estavam unidos em um só.
E assim, Ras se desfez ao terceiro golpe da Ordem do Corvo Branco.
***
A escuridão subiu de repente do meio do campo de batalha. Num instante, aglomerados de escuridão de dezenas de metros de altura cresceram e engoliram a luz do sol no céu, transformando o dia em noite.
Juan parou para olhar para cima diante da mudança súbita. A escuridão continuou a crescer como uma árvore interminável, e corvos começaram a grasnar e dançar em círculos. Bandos de corvos pousaram por toda Hiveden, farejando o jantar.
Os corvos não eram os únicos que sentiram o que estava por vir. Todos os outros em Hiveden podiam sentir também, a morte se aproximava mais rápido do que nunca.
Juan sentiu o cheiro do deserto no vento. Era o cheiro da morte e o cheiro do ermo onde nada podia crescer. Juan sabia muito bem o que aquele cheiro significava. Lágrimas escorreram por suas bochechas.
‘Ras…’
***
Era desconhecido há quanto tempo um deus caminhava pela terra de Hiveden. Apenas alguns entre o povo de Hiveden já tinham visto um deus. Muito antes da morte de Sua Majestade, os deuses e a divindade já haviam sido expulsos do império, e Sua Majestade havia lutado contra os deuses além da fronteira.
Dilmond tinha experiência em lutar contra o exército de um deus, mas a visão diante de seus olhos não se parecia com nada que ele já tivesse visto. Apenas a ponta de um manto enorme roçando-os fez a escuridão envolvê-los.
Embora ninguém pudesse ver nada na escuridão, o cheiro podre permitiu que detectassem algo errado. Todos os cavaleiros da Ordem de Huginn, assim como a Ordem do Corvo Branco e seus Templários, sentiram o cheiro seco da morte.
— Annabelle! — Dilmond chamou apressadamente por Anya.
No entanto, ele não ouviu uma voz respondendo a seus chamados. Ele imaginou que provavelmente ela estava em choque depois de testemunhar a morte de Ras ou estava em uma situação em que não conseguia falar ou se mover. Dilmond decidiu acreditar que era o último. Embora Dilmond também estivesse em choque, Anya e Dilmond já estavam preparados para lidar com situações chocantes sendo comandantes.
— Sir Dilmond!
Ao invés de Anya, um dos cavaleiros da Ordem de Huginn que ouviu a voz de Dilmond se aproximou dele. A única coisa que o cavaleiro podia fazer era sentir o caminho através da escuridão, mas ele pareceu aliviado assim que viu o rosto de Dilmond.
— Aqui está você, senhor! O que está acontecendo agora? O que aconteceu com o senhor Ras?
— O senhor Ras foi… — Dilmond achou difícil continuar suas palavras.
A situação chegando a esse ponto significava apenas uma coisa, Nigrato, o deus da morte que havia sido selado dentro de Ras, abrira os olhos.
Enquanto Dilmond hesitava em responder, o olhar do cavaleiro se virou para o outro lado. No fim do olhar dele estava um dos cavaleiros dos mortos em pé, em silêncio.
— Sir Dilmond, vejo um de nossos cavaleiros veteranos ali. Parece ser o sênior Carl, devemos ir até ele para…
Antes que Dilmond pudesse dizer alguma coisa, o cavaleiro se aproximou de “Carl”. “Carl” virou a cabeça na direção do cavaleiro. O som de passos pesados e secos ecoava pelo campo de batalha.
Dilmond havia recordado um incidente enterrado fundo em sua memória. Foi um incidente que ocorreu quando ele lutou contra os necromantes na área sul logo depois de se tornar um cavaleiro.
— Não! — Dilmond gritou apressadamente ao perceber que o cavaleiro estava em perigo.
No entanto, antes mesmo que ele pudesse terminar suas palavras, o crânio do cavaleiro foi dividido pela espada que ‘Carl’ havia balançado. Seu rosto, que fora dividido ao meio, tinha uma expressão incrédula de descrença.
“Carl” não abrigava mais uma chama azul dentro de seu crânio. Em vez disso, uma escuridão interminável jorrava de todos os buracos em seu corpo.
Dentro da escuridão, gritos surgiram de todas as direções. Não estava claro quem estava gritando, se era um aliado ou um inimigo. A única coisa que podiam fazer na escuridão era se comunicar com suas vozes.
— Procurem por qualquer ser humano! Seja aliado ou inimigo, encontrem os que ainda estão vivos! — Dilmond ordenou.
“Carl” olhou para Dilmond em silêncio e se afastou para algum lugar.
Dilmond não se importava, nem podia se importar com para onde “Carl” estava indo ou o que estava pensando. O único pensamento na mente de Dilmond era que ele precisava salvar as pessoas que ainda estavam vivas.
— Não ataquem os Templários! Os mortos-vivos não são mais nossos aliados! A sobrevivência é nossa principal prioridade agora!
As coisas teriam sido muito mais fáceis com a cooperação de Ethan no comando dos Templários. No entanto, Ethan tinha sido engolido pela escuridão junto com Ras. Não ocorreu a Dilmond que Ethan ainda poderia estar vivo.
Nesse momento, o cavaleiro que havia caído com a cabeça dividida ao meio se contorceu. No entanto, segundo Dilmond, ele não tinha esperanças de sobreviver.
O cavaleiro começou a erguer o corpo com um rugido ininteligível, enquanto derramava a massa cefálica pela abertura entre o crânio dividido.
Dilmond ergueu seu escudo e martelo. No entanto, achou seu martelo muito pesado; ele havia perdido muito sangue.
‘Me pergunto quanto tempo mais podemos resistir.’
Dilmond sorriu amargamente ao perceber tardiamente que não havia sentido em resistir.
Ele estava enfrentando um deus que havia ressuscitado nos tempos modernos. Antes de Sua Majestade aparecer, todas as raças eram tratadas como brinquedos pelos deuses. Mas Sua Majestade estava morto agora, e seus sucessores estavam espalhados pelo império. Ninguém seria capaz de sobreviver em um mundo que estava se tornando escuro como o inferno.