Capítulo 63
Por Trás da Capa (3)
— Parece que não temos muito tempo para conversar pelo jeito que as coisas estão. Eles pegaram Ras?
Anya acenou com a cabeça com uma expressão triste no rosto.
Juan mordeu os lábios ao se arrepender de ter deixado seu filho sozinho no campo de batalha.
‘Ethan, sua lealdade e fé finalmente mataram um dos filhos amados de seu imperador e libertaram o deus da morte.’
Juan sentiu vontade de vomitar. Pensando bem, Juan não teve escolha senão deixar Ras para impedir o bispo Rietto. O resultado teria sido o mesmo, mesmo que ele tivesse avisado Ras com ainda mais firmeza. Juan não queria ficar ressentido com Ras por esse motivo, nem tinha tempo para isso.
O vento que carregava o cheiro da morte soprava em direção a eles, o que significava que Nigrato chegaria em breve. Quando essa hora chegasse, tudo o que Ras tentou proteger morreria e desmoronaria. Juan não podia simplesmente sentar e ver isso acontecer.
‘Me pergunto se tenho alguma chance contra ele.’
Nigrato estava se estabelecendo na realidade em ritmo acelerado mesmo agora. Ele era diferente de Talter, que Juan encontrara em Tântil; se Talter era uma semente com um grande potencial, Nigrato era uma árvore que já havia germinado completamente a partir da semente e continuava a crescer exponencialmente.
Para piorar a situação, Juan nunca havia lutado contra Nigrato antes. Na época em que Juan estava ativamente conquistando deuses e estabelecendo o império, Nigrato já havia cometido suicídio, mas ele ganhava mais poder cada vez que foi ressuscitado. No entanto, ele não conseguiu ressuscitar quando os necromantes do sul foram completamente exterminados, até que Ras, que liderou a aniquilação de todos os necromantes, absorveu sua essência.
Juan agarrou sua espada e se levantou.
— Você vai matar o deus da morte? Perfeito, vou mostrar o caminho. — Disse Anya enquanto assentia.
— Questione minha capacidade pelo menos uma vez ou diga que isso pode ser demais para mim por educação.
— Como eu poderia questionar sua capacidade? Não podemos contar com mais ninguém além de você. — Disse Anya com um sorriso triste no rosto.
Dilmond pegou seu martelo e se aproximou de Juan.
— Já estávamos todos a caminho de Nigrato. Faremos o nosso melhor para não ser um fardo para você, mesmo que acabemos morrendo.
Todos os cavaleiros seguraram suas armas com um olhar determinado.
Juan examinou seus rostos um por um e percebeu que eles não recuariam mesmo que Juan os convencesse a ficar de fora. Mesmo assim, Juan balançou a cabeça.
— Não.
— Mas, Juan, nós…
— Minha resposta não vai mudar, não importa o que diga. Todos vocês são o legado que Ras deixou. Se morrerem, não vai sobrar nada de Ras neste mundo. Tenho certeza de que ele não criou a Ordem de Huginn para matar todos com as próprias mãos. — Disse Juan friamente.
Dilmond olhou feio para Juan, irritado por estar perdendo tempo em uma situação tão urgente por causa de uma discussão desnecessária. A aparição de Nigrato significava que a vida de todos, inclusive a de Juan, estava em risco. Agora não era hora de discutir.
— Se Sir Ras ainda estivesse vivo e aqui conosco, você acha que ele teria nos dito para fugir ou lutar e morrer juntos? É um insulto dizer que não somos nada além do legado do senhor Ras. Nós éramos a espada dele e não nos importamos caso tenhamos que enfrentar nosso mestre no campo de batalha.
Juan olhou silenciosamente para Dilmond e logo acenou com a cabeça.
— Tudo bem.
— Mesmo que você resista até o fim, ainda vamos… espere, o que você disse? — Dilmond perguntou confuso.
— Eu disse que tudo bem, você pode participar. Acho que vou precisar de uma mão. Mas…
Juan rapidamente se aproximou de Anya e deu um soco no estômago dela. Os olhos de Anya rolaram e ela perdeu a consciência com o ataque repentino. Juan a segurou cuidadosamente antes que ela caísse e a entregou para o cavaleiro mais próximo.
— Vamos deixá-la fora disso. De qualquer maneira, os necromantes não ajudarão em nada no domínio de Nigrato. Ela pode até ser possuída novamente.
— Que assim seja. — Respondeu Dilmond.
Dilmond não achava que essa fosse a única razão pela qual Juan queria deixar Anya de fora, mas era um motivo bom o suficiente para ele.
O cavaleiro que havia sido comandado por Juan para manter Anya segura recebeu uma ordem mais detalhada de Dilmond, depois se dirigiu para os arredores de Hiveden com mais alguns cavaleiros para proteger Anya.
Juan olhou para Anya enquanto ela se afastava e virava a cabeça.
— Estaremos correndo contra o tempo a partir deste momento. Não posso me dar ao luxo de cuidar daqueles que não conseguem me acompanhar.
Sem esperar resposta, Juan começou a correr.
***
— Mas que diabos é isso…?
Sina olhou fixamente para a enorme área de escuridão que cobria o centro de Hiveden. A escuridão que parecia aumentar indefinidamente agora começava a tomar forma enquanto palpitava como um coração. Inacreditavelmente, a forma da escuridão parecia assemelhar-se a uma forma humana.
Naquele momento, algo começou a surgir da área que poderia ser considerada a cabeça; era um crânio incrivelmente enorme.
Era difícil para Sina adivinhar a identidade do ser. No entanto, uma coisa ficou clara para ela: o ser era assustadoramente sinistro e nojento. Sina não podia simplesmente sentar e observar inexpressivamente a aparência de tal ser.
— Argh…!
A corda que prendia as mãos e os pés de Sina estava bem amarrada. Embora não parecesse que iria afrouxar tão cedo, Sina colocou força em suas mãos quase como se não se importasse se seus pulsos quebrassem.
Depois de dedicar algum tempo e esforço, ela sentiu suas mãos ficarem livres com um estalo. Quando ela olhou para a condição de seus pulsos, percebeu que eles estavam surpreendentemente bem, exceto por um leve arranhão. No entanto, ela não teve tempo de se perguntar como seus pulsos ainda estavam intactos. Sina imediatamente correu em direção a Kamil, que ainda estava atordoada.
— Kamil!
— A escuridão, a morte está aumentando. O vento que sopra do inferno é…
Sina não hesitou em dar um tapa na bochecha de Kamil. Pensando que Kamil não recuperaria o juízo com apenas um tapa, Sina a puxou pelo colarinho e deu-lhe um tapa mais uma vez. Pouco antes de lhe dar um tapa pela terceira vez, Kamil agarrou o pulso de Sina.
— Já chega. — Disse Kamil.
— Isso é por ter me mantido presa. O que vai fazer agora? Aquele não é o verdadeiro inimigo de todos os Templários?
Kamil parecia sem palavras. Não havia nada de errado no que Sina acabara de dizer, mas, os Templários nunca haviam lutado contra tais seres mitológicos antes. Os Templários só foram criados após o falecimento de Sua Majestade.
De repente, Kamil sentiu vergonha de os Templários se proclamarem o punho e a lança de Sua Majestade. Kamil odiava admitir, mas era verdade que eles nunca lutaram contra os verdadeiros inimigos que Sua Majestade lutou no passado.
— Kamil! Responda-me!
— Não sei. O que você quer que eu faça? Aquele desgraçado está no lugar onde os Templários e a Ordem de Huginn deveriam estar. Isso significa que nem mesmo os Templários e o Capitão Ethan conseguiriam lidar com ele todos juntos! O que quer que eu faça? — Kamil respondeu como se fosse injusto que Sina estivesse pedindo que ela assumisse a responsabilidade. — Morrerei com prazer se me disser para ir lá e morrer. Mas… para mim, parece que tal morte será inútil e sem qualquer significado. Se disser que esse é meu dever e que devo assumir a responsabilidade, então o farei. Mas também não sei o que fazer.
— Você não sabe nem quem ele é? — Sina perguntou.
— Talvez seja Ras. Não consigo pensar em ninguém além de Ras Raud que seja capaz de invocar algo assim… ou se transformar em algo assim. Eu ouvi um boato de que ele fez um acordo com o deus da morte para matar Sua Majestade.
Sina observou a enorme massa de escuridão mais uma vez. A escuridão continuou a assumir a forma de um humano. Tinha um corpo parecido com uma nuvem, uma cabeça exposta com um crânio branco e ossos afiados criando membros que pareciam galhos desleixados.
Sina nunca tinha visto Ras na vida real, mas tinha ouvido falar de inúmeros rumores ameaçadores sobre ele, bem como do fato de que ele era um dos filhos de Sua Majestade.
‘Juan.’
Sina se lembrou de Juan ficando pálido e saindo imediatamente ao ver a aparência do ser depois de incapacitar Rietto. Naquele momento, ele poderia facilmente ter acabado com Rietto e Kamil. Considerando a personalidade de Juan. o fato de ele ter saído sem matá-los na hora fez com que o aparecimento do ser fosse um grande choque para Juan. Esperava que ele estivesse em algum lugar na escuridão.
A escuridão fluía pelos becos como uma névoa. Do fim da escuridão, os mortos-vivos começaram a sair. Ao ver pessoas fugindo com um grito agudo, Sina imediatamente agarrou a espada de Kamil do chão e jogou para ela.
— O que está fazendo? — Kamil perguntou.
— Não vou pedir para você morrer enquanto luta contra aquele monstro. Então, que tal ao menos salvarmos as pessoas que estão prestes a morrer?
Kamil hesitou com a palavra de Sina. As últimas ordens que recebeu foram para proteger o bispo Rietto e massacrar o povo de Hiveden e aceitar a sugestão de Sina seria o mesmo que ignorar ambas.
No entanto, depois de pensar um pouco, Kamil sentiu que as ordens que lhe foram dadas já não faziam sentido agora que o deus da morte havia ressuscitado. Kamil desembainhou a espada e deu um passo à frente.
— Você fica aqui e protege o bispo Rietto, pois ainda não se recuperou totalmente dos ferimentos. Como Templária, lutarei em seu nome e cuidarei dos mortos-vivos já que estão no meu caminho.
***
— Vai ficar ainda mais escuro quando se aproximarem dele! Lembrem-se sempre de ficar ombro a ombro e juntos!
Os cavaleiros da Ordem de Huginn mantiveram os ombros próximos uns dos outros diante do severo aviso de Dilmond.
Juan queria acelerar o ritmo, mas as rajadas de vento que sopravam em direção a eles eram muito fortes. Como o corpo dele era muito leve, a rajada de vento era muito mais difícil de passar do que os mortos-vivos.
Assim, Dilmond liderava o caminho já que seu corpo pesado era mais confiável contra essa rajada de vento.
— Inimigo à direita!
— Também temos alguns à esquerda!
Embora Juan achasse difícil se mover com o vento, ele era útil à sua maneira. O fogo que ele fez ao espalhar seu sangue em sua espada curta era pequeno, mas ainda assim conseguiu expulsar a escuridão profana e garantir um campo de visão.
Quando os inimigos pareciam bloquear seu caminho, os cavaleiros se moviam em perfeita ordem para atacá-los e os esmagavam em um instante.
— Vocês são muito bons nisso. — Disse Juan.
— Tenho certeza de que conhecemos os mortos-vivos melhor do que ninguém. Costumávamos dormir perto deles, sabe? Não temos medo deles e também conhecemos suas fraquezas. — Dilmond olhou para Juan, que seguia atrás enquanto agarrava seu cinto para se apoiar. — O fato de não serem muitos também ajuda bastante. Parece que eles não estão se aproximando de nós devido ao seu incêndio. As Chamas de Sua Majestade são basicamente venenosas para os mortos-vivos.
— Agradeço por não pensar em mim como um perdedor ou algo do tipo, mas não precisa ser tão atencioso. Eu não sou uma criança, você sabe.
— Bem, que… maduro de sua parte. Tudo bem. Você ao menos sabe para onde está indo? Não acho que estamos tão longe de onde Sir Ras morreu.
— De onde o vento está soprando. De onde surge a energia profana. Onde a escuridão se instalou.
— Você é poeta ou algo assim?
— Quero dizer: siga em frente, pois estamos no caminho certo. Já estamos no reino do inferno, um pé na terra de Hiveden e o outro no outro mundo. É normal que sua sensação de distância pareça estranha. — Explicou Juan.
— O que há no final desse caminho?
— Mortos-vivos, mortos-vivos e… ainda mais mortos-vivos. E também terá a essência do Nigrato. Se nos livrarmos de sua essência antes que sua forma se torne completa, poderemos contê-lo.
— Contê-lo enquanto ele está incompleto? Não podemos matá-lo?
— Seria bom se as coisas fossem tão simples, mas… aqueles que se tornaram deuses não morrem tão facilmente. Quero dizer, se conseguirmos mantê-lo incompleto, poderemos matá-lo mais tarde. O importante é que não podemos deixá-lo recuperar sua forma completa. Se ele fizer isso… duvido que até mesmo Barth Baltic seja capaz de lidar com ele.
— Fazer aquele maldito do Barth Baltic lutar contra esse cara parece uma boa para mim. — Disse Dilmond.
— Deixe-me reformular. Barth Baltic e cerca de um terço da população do império. — Disse Juan, então parou de repente e puxou o cinto de Dilmond.
Dilmond olhou para Juan com um olhar perplexo. Logo ele percebeu por que Juan havia parado.
— Então não foi por causa do seu fogo que eles se recusaram a se aproximar de nós. — Murmurou Dilmond.
— Parece que eles estavam tentando proteger seu mestre.
Incontáveis mortos-vivos ficaram na frente deles para bloquear seu caminho. Não havia apenas zumbis e soldados esqueletos, mas também cavaleiros da morte e até ossos de monstros desconhecidos batiam e rastejavam como uma única criatura. A energia profana que jorrava deles fazia parecer que haviam insetos rastejando por todo o corpo dos cavaleiros.
— A boa notícia é que estamos no caminho certo. A má notícia é que não temos muito tempo. — Disse Juan.
Dilmond zombou das palavras de Juan.
— Não! A verdadeira má notícia é que continuaremos seguindo esse caminho!
Dilmond gritou enquanto avançava.