Orland voltou para sua mansão. Ele respondeu casualmente aos criados que o cumprimentaram e foi para seu quarto. Tirou o roupão e jogou-o com descuido na cama, então, caminhou até o armário no canto de seu quarto. Bebidas caras o enchiam de cima a baixo.

Ele se jogou na cama com um copo de uma bebida advinda da semente de abóbora que encheu seu copo até parecer que derramaria com o menor tremor.

— Ah!

Ao beber tudo de uma vez, uma sensação de queimação subiu por sua garganta e o acordou de sua sonolência. Ele soltou um pequeno suspiro e afugentou o álcool restante em sua boca, antes de encher o copo de novo.

Ele colocou uma garrafa de vinho sobre a mesa, então, se moveu para a janela.

Quando abriu a grande janela, um pequeno terraço anexo à sala apareceu. Orland se apoiou na grade do terraço. Viu a cidade trancada na escuridão. Faíscas de fogo ardiam aqui e ali, mas não eram suficientes para afastar a escuridão da cidade. O ar frio lá fora esfriou seu corpo queimado de bebida.

Ele tomou outro gole.

— Caramba!

O que aconteceu hoje passou por sua mente de novo. Ele se lembrou dos poderosos ataques que Walwiss havia lançado contra o invasor que secretamente tentou escutar a conversa. Era uma visão que poderia facilmente destruir a confiança que Orland havia construído para progredir a ponto de poder estar presente nas principais reuniões na torre mágica. É claro que, embora tenham perdido o invasor, Orland não podia subestimar as habilidades de Walwiss.

Orland também tinha certeza disso. 

“Não importa o método que eu use, não posso superar meu pai.”

Um enorme abismo os separava. Ele pensou que havia passado por cima deste muro e podia ver seu pai agora, mas era tudo uma ilusão. Essa parede era muito mais alta do que esperava.

Orland lembrou-se de suas memórias, em especial dos olhos que costumavam olhá-lo com frieza e desinteresse. Aqueles olhares sempre o faziam encolher os ombros de vergonha. Ele pensou que os superou, mas apareceram em sua mente outra vez.

“Cacete!” Ele engoliu mais álcool e esvaziou o copo. “O plano poderia dar certo?”

Ele começou a duvidar de si mesmo. O medo de que as gigantescas faíscas que havia criado pudessem voltar corria solto. Além disso, não foi apenas a súbita compreensão do poder de seu pai que enfraqueceu sua vontade.

“Por que aqueles caras estúpidos morreram de repente?”

Pensou no grupo misterioso com o qual se juntou e cerrou os dentes. Desde que ele deu as mãos a eles, nunca sofreu perdas. Portanto, pensou que esse plano também teria sucesso.

“Mas pensar que todos iriam morrer…”

Fora isso, como ninguém sobreviveu, não havia como descobrir quem eram seus assassinos. Era impensável que todos os seus colaboradores morressem mesmo tendo tanto do plano a cumprir.

“Ademais, a situação já ficou uma merda!”

Era muito cedo para permitir que o plano avançasse mais. Ele havia planejado manter essa situação por alguns anos, mas por causa de alguma variável desconhecida, tudo estava virando uma bagunça.

— Lyla.

Ela foi a mulher que de repente declarou que ensinaria magia a Elena. Por mais que suas habilidades fossem admiráveis, ela fazia Orland rir. Não importa o quão grande seja um mago, ninguém poderia resolver a condição atual de Elena.

Orland sempre ficava do lado de Elena, mesmo quando discutia com Walwiss. Quanto mais estudava magia, mais benéfico era. Não, ele realmente não podia deixá-la desistir de estudar magia, mas isso foi um erro.

Orland colocou a mão no peito. A mana dentro dele sempre seguiu fielmente sua autoridade anterior, mas a mana supostamente pura estava misturada com substâncias estranhas agora, em especial antes de ele proferir qualquer feitiço ou usar qualquer magia. Estavam começando a se misturar em seu corpo.

“Está ficando mais difícil controlar minha magia por causa disso.”

Ele ouviu que Elena poderia usar magia emprestando mana por um momento de uma besta mágica de um dos companheiros de Lyla, o que explicava o motivo dessa dificuldade. Contudo, esse não era o único problema: era perigoso que eles percebessem que havia uma anormalidade no corpo dela.

“Eles contaram para o meu pai também!”

Mesmo que Walwiss não parecesse ter se importado tanto, não havia garantia de que ele continuaria sua inação. Orland não achava que seria descoberto, pois havia usado um método bastante inteligente, apesar de não poder confiar e relaxar. 

Já que descobriu que havia algo estranho com Elena, Walwiss poderia usar algum método inimaginável para descobrir a verdade. Assim, Orland tentou apressar o plano, bagunçando tudo. Felizmente, ele conseguiu descobrir quem eram os sequestradores de Elena.

“Zich, Lyla e seus companheiros!”

Substâncias estranhas continuavam a se misturar com a mana interior. Era a prova de que Elena continuava a estudar magia com a besta. Todavia, não havia nenhuma prova definitiva para encurralá-los como culpados, e não era como se ele pudesse revelar o poder estranho dentro de sua mana.

“Eu tenho que encontrar alguma evidência contra eles!”

Ele também tinha que encontrar Elena. Ela era um elo muito importante ligado ao misterioso grupo com o qual ele colaborava.

“Embora tenham morrido, isso não importa. Já que disseram que Elena era muito importante para eles, tenho certeza que outro grupo virá.”

Então, ele poderia continuar a receber a ajuda deles. 

“Eu também tenho que obter uma ajudinha de Elena antes que meu plano amadureça por completo.”

Orland de repente sentiu um pouquinho de culpa. Mesmo trabalhando para atingir seu objetivo, teve que admitir que estava usando sua filha. No fim, porém, ele balançou a cabeça. 

“Os filhos só podem andar com orgulho se o pai se sair bem. Não é como se ela fosse ficar assim para sempre.”

De propósito apagando a memória de Elena sorrindo, assentiu.

“Sim, não pode ser evitado. Pelo menos eu tenho que ter sucesso neste objetivo para Elena. E…”

Orland tentou mover a mana dentro dele. Embora algumas substâncias estranhas estivessem dentro dela, a mana ainda se movia de acordo com seus desejos. 

“Também é pela mãe dela.”


Embora o quintal dos Jaewicks tivesse sido destruído no dia anterior, a reunião da busca por Elena continuou. Em vez de o intruso, achar a garota ainda era um assunto mais importante.

Uma pessoa não compareceu.

— Por que ele não vem? — perguntou Wayne, irritadíssimo.

Por mais que fosse compreensível que alguém se irritasse com o atraso de outra pessoa, seu aborrecimento foi muito maior do que o normal com Zich. Como o odiava, não havia como seu tom ser agradável.

— Ele acha que é algum tipo de figurão porque lhe demos permissão para participar desta reunião? Como esperado de um mendigo vagabundo!

À medida que a voz de Wayne ficava mais alta, as carrancas das pessoas ficavam mais profundas. Mesmo que a irritação dele não fosse dirigida a eles, ainda era desagradável ouvir as reclamações de outra pessoa.

— Senhor, Zich está muito atrasado. Acho melhor a gente mandar alguém buscá-lo e começar a reunião sozinhos primeiro.  — Alguém expressou seus pensamentos.

Walwiss assentiu e a reunião começou. Nenhuma informação digna de nota surgiu desta vez também. A maior parte da reunião foi gasta falando a respeito de quem se infiltrou na mansão dos Jaewicks na noite passada.

Depois que o encontro terminou sem resultados, as pessoas começaram a se levantar uma a uma. Zich ainda estava longe de ser visto. Quando as únicas pessoas que restaram na sala foram Walwiss, Orland e Wayne…

A pessoa enviada para trazê-lo voltou.

— Senhor, Zich está doente, então não poderia vir hoje.

— Doente? — Wayne franziu a testa. — Se ele está doente, deveria ter enviado alguém para nos informar em vez de nos fazer apenas esperar por ele.

Wayne fofocou por alguns minutos, e Walwiss o ouviu em silêncio. Já que Walwiss destruiu o quintal dos Jaewicks e não conseguiu pegar o intruso, seria mais atencioso com Wayne por enquanto.

Então Walwiss perguntou a Orland:

— No que você está pensando tanto?

Orland lentamente abriu a boca e disse:

— Achei que era um pouco coincidência.

— O quê?

— Sobre o intruso ontem.

Walwiss e Wayne fizeram caretas ao mesmo tempo.

No entanto, Orland não prestou atenção às expressões deles e continuou:

— O intruso com certeza se curou com poções, mas foi atingido várias vezes por sua poderosa magia. Não importa quão boas sejam suas poções, existem limitações. Em particular, tenho certeza de que seu fluxo de mana e mente foram atingidos.

Orland encontrou os olhos de ambos e continuou:

— Deve ter havido efeitos colaterais. Mas no dia seguinte, ficamos sabendo que o senhor Zich está doente…

— Ele é o intruso!

Wayne bateu palmas e logo se levantou. Ele parecia muito animado, e até sua respiração ficou um pouco áspera.

— Ainda não é certo — falou Orland, mas Wayne não o ouvia.

— Eu não tenho dito isso o tempo todo?! Esse cara é suspeito! Vamos vê-lo de imediato! Se formos vê-lo com a desculpa de ver como está, ele não poderá recusar. Vamos ver como ele age então!

— Eu disse que ainda não é certo!

Quando Orland falou com uma voz mais alta do que o normal, Wayne olhou para ele. 

— Mas foi você quem disse que ele era suspeito.

— Sim, isso é verdade, mas… Não estou dizendo que devemos acusá-lo agora. Estou dizendo que devemos apenas nos ligar mais nele.

Orland não parecia ter nada a dizer sobre isso enquanto fechava a boca. Wayne olhou triunfante para Orland uma vez e voltou seu olhar para Walwiss. 

— Senhor, qual é a sua decisão?


Foi um pouco mais tarde naquele dia quando Walwiss trouxe Orland e Wayne para visitar Zich.  Ao chegarem, ele estava sentado em sua cama com Lyla ao lado.

— Todos, bem-vindos.

Zich tentou se levantar, mas Walwiss acenou com a mão.

— Não se levante. Ouvi dizer que estava doente. Fique confortável.

— Obrigado. Aceitarei sua consideração.

Walwiss sentou-se em uma cadeira ao lado da cama; Orland e Wayne atrás.

— Vocês dois, se sentem também.

— Está tudo bem — respondeu Orland. — Não queremos incomodar muito um enfermo. Iremos embora logo, então não precisamos nos sentar.

Wayne não respondeu e examinou Zich com atenção atrás de alguma coisa que pudesse pescar.

— O que aconteceu? — questionou Walwiss.

— Parece que eu me esforcei demais esses dias, então estou me sentindo mal. Minha condição física é ruim — respondeu, coçando a parte de trás da cabeça, como se estivesse envergonhado.

— Peço desculpas por fazer você se esforçar.

— Senhor, de jeito nenhum. É tudo porque me falta treino. Além disso, é puramente minha escolha ajudar a encontrar Elena, então você não tem motivos para se desculpar.

À primeira vista, parecia uma cena calorosa de duas pessoas mostrando consideração uma pela outra. Mas Walwiss estava focado em avaliar a condição de Zich.

Deixe um comentário