Desde que a senhora Bargot se juntou à força-tarefa, ela e Zich sempre saíam juntos. Por mais que ele não soubesse muito de medicina, ela parecia gostar dele por compartilhar a outra fórmula, então o ajudava com pequenos pedaços do que sabia e o arrastava para os lugares, e ele a seguia sem reclamar e ouvia tudo o que dizia.
Rumores sobre os dois começaram a se espalhar. Ele era um jovem bonito de uma linhagem nobre, e ela era uma beleza. Quando pessoas perceptíveis saíam juntas, boatos surgiam sem tanto esforço. Havia uma diferença significativa de idade entre eles, porém só fez o suposto relacionamento parecer mais romântico.
Pessoas intrometidas começaram a fofocar e tirar conclusões. Ambos os esforços para acalmar a situação da doença desempenharam um papel significativo para melhorar as suas imagens. Embora a fofoca geralmente acabasse manchando a reputação de uma ou mais partes, quase ninguém falava mal deles.
— Tá olhando o quê? — Enquanto se preparava para dar o golpe final na doença, notou Hans o observando.
— Os rumores são verdadeiros, senhor?
— Que rumores?
— Você sabe, que você e a senhora Bargot são um casal.
Ele não perguntou por curiosidade. Não tinha a menor intenção de intervir na vida amorosa dele, e sim porque ainda tinha alguns dos hábitos de seus dias de servo.
“Se forem verdadeiros, terei que tratá-la de forma diferente das outras pessoas.”
Tinha uma mentalidade diferente da de Snoc, que estava ouvindo ansiando por uma história de amor. Zich sorriu, como se soubesse o motivo da pergunta.
— Não tem por que tratá-la diferente de antes. E o nosso relacionamento não é assim.
— Sério? — Assentiu.
Se Zich falou que era o caso, não tinha razão para mais perguntas. Depois de ouvir a resposta, agarrou um Snoc desapontado pela nuca e se preparou para o dia.
Toc! Toc!
Alguém de repente bateu no abrigo temporário em que estavam hospedados. A expressão de Hans e Snoc endureceu, porque quem visitava o lugar eram soldados sob as ordens de Joaquim e na maioria das vezes não traziam boas notícias.
Se perguntaram se ígram, que estava começando a desaparecer, teria uma segunda onda. No entanto, as palavras de Zich fez as suas preocupações desaparecerem.
— Não é soldado, relaxem. Devem ter vindo falar comigo sobre algo. — Foi à porta.
Era sempre Hans ou Snoc que a abriam, e graças a isso a cena pareceu muito incomum. Entretanto, ao verem quem estava do lado de fora, entenderam. Sabiam quem era graças à vestimenta escura e o véu de algodão cobrindo o rosto.
— Saudações, senhor Zich. Dormiu bem?
— Culpa sua. Desmaiei na cama.
— É um alívio ouvir isso. O sono é um dos fatores mais importantes para uma boa saúde. — Sorriu amplamente.
— Estou honrado por ter a sorte de ver seu belo rosto tão cedo de manhã, mas a que devo esse prazer?
— Fufu! Você é habilidoso com as palavras. Se ainda não amasse meu marido, teria me apaixonado por você. — Cobriu a boca com as mãos e sorriu.
Os outros dois lançaram olhares furtivos para ela. Era bonita o suficiente para deixar suas mentes em branco.
— Desculpe incomodar, mas tem alguém que gostaria que conhecesse. Ah, tive permissão do senhor Joaquim, é claro. Já que a doença está desacelerando, ele disse que não tem problema sair por um tempo.
— Alguém que quer que eu conheça? É uma pena que não seja uma proposta para um encontro. Bem, como é você, é mais do que suficiente para eu arranjar tempo. Vou me aprontar.
Ele voltou para dentro e terminou de se arrumar.
— Devemos ir agora?
— Sim.
Ele ofereceu seu braço para leva-la à estrada, e ela pôs a mão. Qualquer um pensaria que algo acontecia entre eles. Hans e Snoc observaram os dois saírem, ficando lado a lado e pensando a mesma coisa.
“Como ele age assim e diz que não têm um caso?”
Foram embora de Ospurin. Felizmente, havia outro portão perto da área de quarentena usado para mover cadáveres fora do castelo e queimá-los, e não precisavam passar por pessoas não expostas à doença prontas para fofocar.
O exterior estava quieto e sem sinal de vida. O local conectado ao portão também impedia gente de fora. Além de um par de árvores que acenavam sob a brisa leve, o lugar era um prado colorido com grama verde. Todavia, as lápides no chão indicavam o que era.
Zich olhou ao redor; todos tinham nomes diferentes e um sobrenome igual: Bargot.
“Deve ser o cemitério deles. Está bem conservado até depois do colapso da família. É bem ela quem está cuidando.” Olhou para ela, que se moveu e parou à frente das duas lápides no final.
“Alex Bargot…”
“Luin Bargot…”
Sem perguntar, sabia quem eram. Além dela, ele olhou para os túmulos abaixo.
“São os familiares dela que morreram da doença?”
— Minha família — disse enfim. Sua voz estava calma, passando a impressão que o tempo diminuiu o carinho que sentia por eles. No entanto, não foi isso. Ele apenas transformou as tristezas em saudades, e não conseguiu apagar o amor ali presente.
Ela colocou a mão em cima da lápide de pedra de Alex.
— Meu marido. — Começou a explicação — Era bem mais velho do que eu, mas nos amávamos. Até enquanto estava ocupado com os negócios, se atentava a mim. Eu o amava por isso. Quando nosso amor deu frutos, senti que tinha o mundo inteiro nas mãos.
Moveu as mãos para a lápide de Luin.
— Era uma criança tão adorável. Sempre sorrindo, chorando e dormindo. Toda vez que se espreguiçava na minha frente, eu pensava que desabaria com aquela cena fofa. Percebi o que uma criança significava e por que importava tanto para a mãe quando tive ele. — Ela pegou um lenço e enxugou as lágrimas descendo pela bochecha — Perdão. Não posso evitar quando venho aqui.
— Está tudo bem.
— Eram eles que eu queria te apresentar. — Ficou no centro e pôs as mãos nas duas ao mesmo tempo. Parecia segurar as mãos do marido e do filho — Não sei como obteve a cura, mas graças a isso, vi esperança. Esperança que possamos vencer todas as doenças. Notou que estou vestindo roupas de luto?
— Eu estava ciente disso.
— Jurei no funeral deles que tiraria assim que criássemos todas as curas possíveis.
Era basicamente um objetivo impossível, mas quem riria dela?
— Por isso queria mostrar eles a você. Queria mostrar que, graças a você, pudemos alcançar um pouco do nosso objetivo. Queria dizer que, no mínimo, ninguém teria o mesmo destino que eles — falou amargamente — Agora que penso nisso, parece muito egoísta.
— Não, não é verdade. Você tem feito muito. Ninguém te culparia por isso.
— Obrigada. — Sorriu.
Como mãe e esposa, se apoiou em uma distante esperança.
— Vamos voltar agora. — Aumentou o tom de voz, querendo melhorar o clima pesado — Ígram ainda não desapareceu por completo. Vamos acabar com isso logo.
Segurou as mãos dele, e o calor da palma macia dela de pouco em pouco se espalhou até a ponta dos seus dedos.
Após retornar ao abrigo temporário, Zich se deitou. Hans e Snoc olharam para ele com curiosidade ao voltar de braços cruzados com Bargot, todavia ele socou a cabeça dos dois, e desviaram o olhar. Mas não mudaram de ideia.
“Hmm, amantes.”
Ele sabia o que os dois estavam obviamente pensando.
“Acho que é o que parece para os de fora.”
Já que não se importava com o que pensavam, não se ligou das reações. No entanto, a ponto de chocá-los, ele não possuía nem um resquício de sentimentos românticos por ela. Era verdade que desde que ela apareceu, ele continuou a procurá-la e ganhar o seu favor. O porquê não era algo tão doce quanto romance.
“Será que ela é o Fest, de verdade?”
Com a introdução da cura, ela de repente apareceu e expressou seu interesse nele; era extremamente experiente com doenças infecciosas e proferia palavras que ele sabia que ouviu falar antes de regredir. Era a candidata mais provável entre todos que conheceu no momento. Não rejeitou o interesse dela, e em vez disso, o acolheu para observá-la mais de perto.
Não obteve tantas informações até agora, apenas que ela possuía uma grande quantidade de conhecimento e interesse em doenças, e só. No geral, não parecia um demônio.
“Eu deveria observá-la por um pouco mais de tempo e depois me distanciar.”
Não significava que se livrou das suspeitas. Somente julgou que não descobriria mais coisas úteis ficando ao seu lado.
Pensando nas duas figuras suspeitas: o antigo cavaleiro dos Dracul e atual mordomo, Shalom, e Burgot, que perdeu a família. Após isso, adormeceu.
Alguns dias se passaram, e a doença aparentava ter perdido todo o poder. Não traria mais medo às pessoas. Um dia antes, até as regras de bloqueio e quarentena foram suspensas.
Venceram a doença.
Acharam que o vírus logo seria usado para o bem. Todavia, a força-tarefa, incluindo Joaquim, não baixou a guarda. Relaxariam depois de vencer, de fato, tudo que se espalhavam pela região.
Zich pensava igual e foi para o abrigo temporário de novo a fim de fazer o de sempre: cuidar dos doentes e criar mais doses. Até que, de repente, alguém gritou:
— Zich!