Um sino tocou sobre uma grande torre do templo: o último som de despedida para as pessoas que faleceram. O povo de Ospurin disse que cada alma que ouvisse deixaria todos os arrependimentos, raiva e sentimentos remanescentes para trás no reino mortal para entrar na terra dos deuses, onde seriam julgados.
— Não acho que meu irmão e meu pai vão pro céu — disse Joaquim, observando o barulho desaparecer.
Os vassalos ao lado não puderam responder. Sob circunstâncias normais, teriam sido maneiras básicas negar as palavras, uma vez que foram dirigidas ao antigo chefe do território e seu filho. No entanto, não podiam mais apoiá-los ou falar bem deles. A personalidade de Biyom sempre foi uma merda completa, então não tinha muito o que comentar, de qualquer maneira.
— Tenho certeza que se arrependerão. Eles provavelmente estão prontos para isso — afirmou Brod, não suportando o silêncio.
— Se arrepender… é uma obrigação. Não importa quanto sofrimento e dor os sigam, têm que se arrepender. Mas primeiro, gostaria que se desculpassem com todas as vítimas.
— Eles irão, com certeza.
O conde e Biyom não puderam ser curados e, eventualmente, morreram. Hoje foi o funeral deles. Apesar de serem duas pessoas importantes, foi pequeno ao ponto de ser pobre. Considerando a situação do condado e as ações passadas do conde, não tiveram escolha a não ser realizar dessa maneira.
— Obrigado por comparecer, senhor Zich. — Joaquim, cumprimentando cada um dos presentes, fez uma pequena reverência a Zich.
Devido ao tamanho do evento, ele convidou apenas o mínimo; a presença de Zich indicou o quão confiável e respeitado ele era.
— Claro. Não é uma tarefa difícil.
— Também quero agradecer a vocês dois. — Se curvou de leve perante Snoc e Hans, que estavam ao lado de Zich.
— Ah, ah, não! E-está tudo bem!
— Ah, eu… minhas condolências!
Por serem um servo e um mineiro comum, sentiram que assistir ao velório de um aristocrata e ver o herdeiro se curvando era estranho e assustador. Ambos tentaram devolver o gesto. Aos olhos de um nobre, o comportamento deles teria parecido muito estranho, até imprudente. Entretanto, ninguém os criticou. Apenas Zich olhou para eles como se fossem patéticos.
— Ouvi dizer que vocês três vão embora em breve.
— Nós só estávamos parando aqui por um tempo enquanto viajávamos. Ficamos mais tempo do que planejamos, então queremos adiantar as coisas — respondeu Zich.
— Não têm planos de se juntar a nós? Garanto que receberão o melhor tratamento.
Mesmo reorganizando o território, Joaquim tentou manter o apoio dos três. Durante o tempo em que estiveram juntos, Zich mostrou sua capacidade de avaliar a situação com rapidez, seu extenso saber e proezas de luta. Todas as vezes que salvou e ajudou o local foram mais do que suficientes para torná-lo a pessoa número um que Joaquim queria ao lado. Ele também era jovem, então tinha ainda mais potencial.
— Não gosto de ficar preso em um lugar.
Como sempre, se recusou, que nem fez nas outras vezes. Nesse ponto, até Joaquim já havia desistido, então sua decepção foi mínima.
— Mesmo sem mim, não terão muitos problemas. Tem muitas pessoas, como o senhor Brod, te apoiando. Ah, e não poderei mais me dirigir a você dessa forma, já que será o novo conde em breve.
— Ainda não gosto muito desse título. E levará tempo e esforço para obter a aprovação do rei.
— Você vai contar do conde?
Era uma frase ambígua, mas todos sabiam o que ele queria dizer. Todos os apoiadores de Joaquim pareciam abatidos. Todavia, não havia nenhum vestígio de hesitação no seu rosto.
— Sem dúvidas. Mesmo que tenha sido para nos salvar, as ações dele nunca serão perdoadas. Tenho que começar a remediar esses erros e dar o devido julgamento àqueles que planejaram e participaram dos crimes.
— É, complicado.
— Não posso não fazer. Meu pai justificou dizendo que foi pelo condado, mas no final, levou à existência de Fest e trouxe mais caos e destruição. É irônico se você pensar sobre isso.
— Desde o início, Fest era louca e possuía uma natureza podre.
— Mas antes de meu pai espalhar doenças para os Bargots, ela era uma senhora normal da casa. Nunca se sabe. Se as doenças nunca tivessem atingido a família dela, ela poderia ter morrido sem nunca saber dessa sua parte e ser vista como uma boa esposa e mãe.
— Você está planejando também assumir os pecados dela em seus ombros.
— É a maior razão pela qual quero herdar o território — contou, tirando um momento para respirar — Apenas algumas semanas atrás, queria deixar os Draculs e viajar que nem você, senhor Zich. Agora estou prestes a me tornar o conde… É como dizem: a vida é uma caixinha de surpresas.
E ele agora estava recebendo apoio total. Era inimaginável que ele costumava ser tratado feito um fardo há alguns dias.
— Sua hemofobia vai atrapalhar muito, viu.
— Vou trabalhar duro para superá-la — disse, ficando meio pálido ao pensar em sangue — Felizmente, graças a esses tempos, comecei a suportar mais.
— Mas ouvi dizer que desmaiou assim que a batalha terminou.
Joaquim hesitou. Aquilo era um problema significativo. Apesar de suas habilidades e talentos, as únicas razões pelas quais Biyom pôde se manter na posição foram por causa da tradição e da constituição frágil do irmão.
— Por que não tenta usar isso? — Zich tirou algo do bolso.
— Isso… — Os olhos de Joaquim se arregalaram ao ver o mármore vermelho usado pelo líder dos assassinos — Receptáculo de Sangue.
— Vi rolando no chão por acaso. — O seu sorriso era sem vergonha por completo.
Seus dois servos, principalmente Snoc, aparentavam ter muito a dizer, mas até o final, não falaram nada.
— Sabe o que é? — questionou Joaquim.
— Se está falando de onde veio ou quem o fez, não sei é de nada.
— Então…
— Mas conheço suas habilidades e efeitos colaterais.
Já que ouviu do próprio Joaquim antes de regredir, tinha certeza de suas informações.
— Você tem mesmo um conhecimento estranho e misterioso.
— Fico feliz em ajudar as pessoas com ele.
Por sua resposta, parecia que não ia dizer de onde descobriu os detalhes.
— Qual é a capacidade?
— Torna seu corpo saudável e ajuda você a superar sua fobia aí. Mas, acima de tudo, você recebe um poder chamado “Dobra de Sangue”.
— Dobra de Sangue… Não parece muito bom.
— Como o nome indica, permite que controle o sangue das pessoas. É poderosíssimo.
Com essa habilidade sozinha, Joaquim se tornou um dos quatro subalternos do Lorde Demônio da Força, Zich Moore. Porém, franziu o rosto após ouvir o que ganharia.
— Tirando isso, todo o resto parece atraente para mim. Qual é o efeito colateral?
— Você vai ficar sedento por sangue.
Joaquim franziu os lábios. As pessoas ao seu redor também olharam com surpresa.
— Não foi uma explicação clara, embora bastante negativa. Pode me explicar com mais detalhes, por favor?
— De forma simples, é vampirismo. Você vai virar um monstro que fará qualquer coisa para ver sangue.
Antes de regredir, Zich pensou que o amor pelo sangue era dele mesmo. No entanto, o atual Joaquim era um humano comum que odiava sangue muito mais do que a maioria das pessoas. Quando soube que era graças ao Receptáculo de Sangue, achou que era um absurdo; agora, percebeu que era verdade.
— Mas, senhor Zich, deve ter uma solução para esse problema, certo?
Por confiar nele, perguntou com calma. Se lhe fosse oferecido o objeto sem pensar, ficaria com raiva.
— Não se preocupe. Quando você absorver, não vai sentir muita coisa logo no início. Talvez nada. Mas, à medida que usa seus poderes cada vez mais, as coisas mudarão.
— Está dizendo que meu desejo aumentará à medida que eu usar mais o poder?
— Não importa se usar seu próprio sangue. Mas, é claro, se usar muito dele, vai morrer. Assim, só poderá utilizá-lo ao máximo se usar o de outras pessoas. Quanto mais você usar, mais sua sede aumentará.
— Até que ponto?
— Creio que você pode querer matar um monte de gente apenas para se banhar no sangue.
Um silêncio misterioso encheu toda a área. Com medo, olharam para aquela coisa que Zich estava segurando, e alguns engoliram sua saliva de volta.
Joaquim caiu na contemplação, equilibrando a escala entre risco e retorno para saber que decisão deveria tomar.
— Se eu sucumbir, vai ser um grande caos.
— Está preocupado com a possibilidade de fazer coisas ruins?
— E o que mais devo pensar?
— Relaxa, cara. Não sou alguém que te deixaria às cegas com algo que sugeri.
— Tem algum jeito? — perguntou, esperançoso.
Hans sabia que não seria uma resposta normal, conhecendo seu mestre.
— Se isso acontecer, eu virei pessoalmente matá-lo.
Aquilo foi extremo, fazendo Hans e Snoc observarem em choque.
— Haha! Entendo. Fico feliz em ter uma prevenção infalível como você.
Surpreendentemente, parecia satisfeito, e seus olhos pousaram no orbe.
— Tudo bem. Eu aceito.
Ele acabou absorvendo, como fez antes da regressão. Zich mudou o seu passado, então a chance de Joaquim ficar louco era minúscula.
Pouco tempo depois, se tornou o sucessor da família, e ninguém protestou contra. O que ele fez depois alertou não apenas o território, porém todo o reino, ao revelar os delitos que seu pai, o conde anterior, havia cometido.
Como esperado, os Draculs receberam todos os tipos de críticas e insultos, e o sentimento do público azedou. Ainda assim, o novo conde completou as tarefas que ele tinha que fazer com calma e eficiência.
— Haa! — Se sentou no escritório e suspirou, colocando o documento que segurava na mesa e tirando um minuto para olhar pro teto à toa.
Havia uma montanha de documentos na frente dele, e muito mais não lidos empilhados no lado oposto.
Toc! Toc!
— Pode entrar — murmurou baixinho, por ainda não estar acostumado a falar de maneira informal. Quando viu Brod entrar com um braço cheio de papéis, arfou.
— Parece cansado, senhor.
— Tenho certeza de que se eu deitar em uma cama agora, vou acordar na próxima tarde.
— Mas não era isso que queria, senhor?
— Não precisa me lembrar. Estou fazendo todo esse trabalho sem reclamar porque sei disso.
— Hahaha! Mas é uma sorte que o Receptáculo de Sangue pareça estar tendo efeito.
Joaquim pôs a mão na cabeça. Se sentia exausto, o que era compreensível, considerando todo o seu novo trabalho.
— Se fosse como antes, teria desmaiado agora.
— Estou feliz em te ver saudável, senhor.
— Sério? Não é porque você pode continuar me ocupando?
— Perdoe seu servo infiel, pois não posso negar essa afirmação.
Então, Brod pegou os documentos que trouxe e os jogou em cima da pilha, arrancando um som cansado de Joaquim quando a montanha branca cresceu ainda mais.
— Não pensei que sentiria falta do tempo em que eu vivia doente.