Capítulo 14
Alice Liddell (2)
SoYoon ficou surpresa que o Chapeleiro Maluco saiu de casa só para mostrar o smartphone a Heart. Determinada a não ser incomodada pelos dois, SoYoon pegou um garfo e uma faca para cortar o mil-folhas.
Ela cortou de forma limpa, sem deixar cair migalhas. Estranhamente, os dois permaneceram quietos enquanto ela comia um pedaço de sobremesa, e só começaram a conversar sobre os recursos do smartphone depois que ela estava na metade do caminho.
— É, basicamente, um celular — disse Heart após ouvir a explicação simplificada. Então ele suspirou para que o Chapeleiro Maluco ouvisse.
— Posso entender por que alguém como você pensaria nesta obra-prima como ‘basicamente um celular’ — disse Chapeleiro Maluco. — É normal que aqueles com menos conhecimento entrem em conflito com grandes inovadores. Ah, também inclui um elemento de ciúme. É a ação de uma alma simples que pensa que pode ganhar o amor forçando o tempo.
Ele continuou. — O importante não é o item em si, mas o usuário. Quantas pessoas você acha que poderiam usar todas as funções que descrevi? Além disso, esta mudança drástica é quase violenta. Vamos fingir que você deu isso aos seus lacaios agora. Quantos você acha que realmente aceitariam isso? Eles apenas pensarão que é uma coisa inútil, sem propósito real, apenas alguma coisa chamativa tentando arrancar o seu conforto.
— Então você percebe que seus lacaios são tão ingênuos quanto seu dono. Mas não se preocupe. Eu simplifiquei o suficiente para que até você, Heart, pudesse entender como usá-lo. Se os confortos de hoje não são eficientes, então não será nosso dever encontrar um caminho melhor? Se der uma chance, ele vai durar.
— Parece que você mesmo projetou e criou isso, mas provavelmente não está planejando espalhar isso para o Mundo Além — disse Heart. — Então qual é o sentido de apenas alguns no País das Maravilhas usarem este telefone em específico? Não creio que haja razão para investir em tal coisa. Se uma pessoa está satisfeita com seu modo de vida, não há razão para forçá-la a quebrá-lo por um motivo tão frívolo?
Enquanto os dois homens brigavam, o mil-folhas e o café acabaram, e SoYoon pegou o celular por hábito. Não havia novas tarefas para fazer.
‘Devo jogar o jogo que o Chapeleiro Maluco baixou para mim?’ Ela apertou os botões para entrar no jogo quando percebeu que tudo estava silencioso. Ela se virou para encontrar os dois homens olhando para ela.
— Há muitas razões.
SoYoon ainda estava prestando atenção na conversa e sabia que a resposta do Chapeleiro Maluco era para irritar Heart. Chapeleiro Maluco pegou o telefone que estava entre os dois homens e o empurrou para SoYoon.
— Use-o.
— Você está dando para mim?
— Claro, por que mais eu mostraria isso para você? Ele usa uma cápsula mágica para que nem precise carregá-lo no dia a dia.
SoYoon ligou o smartphone e verificou os aplicativos. Não era diferente daquele que ela usava há 13 anos.
Heart, que a observava, perguntou: — Isso parece familiar para você?
— Bem…
— Claro que é. Foi ela quem teve a ideia.
‘Violento e sem necessidade de investimento, né?’ O Chapeleiro Maluco sorriu.
Eventualmente, o Chapeleiro Maluco recebeu os fundos para criar um smartphone para Heart e deixou o escritório. Com uma carranca, no momento em que Heart fechou a porta, ele se deitou no colo de SoYoon. Seu rosto fazendo beicinho era apropriado para um jovem de 25 anos.
— Eu perdi dessa vez.
‘Sério?’ Não entendendo realmente o que havia perdido, SoYoon não respondeu. Heart não esperava uma resposta, mas concentrou toda a sua energia brincando com a mão dela. SoYoon deixou Heart pegar emprestado uma mão enquanto brincava com o smartphone na outra.
Heart perguntou suavemente, mas com um toque de aborrecimento. — Você gosta tanto disso?
‘Se gosto disso?’ SoYoon não conseguiu responder. Os smartphones eram úteis. Não, mesmo isso não era uma explicação adequada. Para a pessoa normal do século 21 na Terra, era difícil não sentir apego ao smartphone. Mas depois de 13 anos sem usá-lo, isso não era mais verdadeiro. No momento, um smartphone não era uma necessidade.
SoYoon tocou a tela lisa do telefone. Seu coração doeu. Quem imaginaria que uma nova tecnologia poderia trazer tanta nostalgia?
Heart se levantou, acariciou seu rosto e olhou em seus olhos. Diferente dos dela, os olhos dele tinham uma pontada vermelha e emanavam uma energia selvagem. Ele a puxou para seus braços. A respiração de Heart varreu seu pescoço.
— Você cheira bem.
— Faz cócegas.
— Não é hora de você usar um sabonete diferente com outro cheiro?
— Pare de falar. Pare de respirar.
— Me dizendo para morrer. Que malvada.
Heart riu baixinho. SoYoon o empurrou enquanto as cócegas pioravam. Ele deixou que ela o afastasse sem lutar e depois voltou para sua mesa.
— Você pode sair.
SoYoon se levantou e se despediu rapidamente, depois saiu – como era a rotina em sua vida.
***
No dia seguinte, ela estava examinando suas coisas quando percebeu que os adesivos que usava em sua marca estavam acabando. Ela foi ver o Chapeleiro Maluco por volta do meio-dia. Ele deve ter acordado cedo hoje porque parecia surpreendentemente alerta.
— Sente-se, por favor.
SoYoon se sentou no sofá do primeiro andar. Sobre a mesa havia uma xícara de chá. Ela estava prestes a beber quando percebeu que o copo estava vazio.
— Quer beber? — perguntou o Chapeleiro Maluco, sacudindo uma garrafa de vidro que continha vodca cristalizada que foi deixada na geladeira por muito tempo.
Quando SoYoon balançou a cabeça, ele não perguntou uma segunda vez e se serviu de uma xícara. Seus longos dedos brancos seguraram levemente a alça antiga da xícara enquanto ele a levava aos lábios. Seu chapéu gigante com estampa de leopardo e sua clássica caneta tinteiro faziam com que ele parecesse um membro da nobreza do frio norte.
Enquanto ele bebia a vodca, SoYoon contou a ele o que queria. Como ela era a única pessoa a usar o adesivo, ela precisava primeiro fazer o pedido e depois mandar fazer.
— Quanto tempo vai demorar?
— Quantos você ainda tem? Não, não importa. Me dê a sua bolsa.
O Chapeleiro Maluco checou a cross bolsa que SoYoon sempre carregava. Seus olhos azuis refletiam o verde.
— Você só tem mais três. Eu disse para verificar isso com frequência. Se ficar relaxada, terá problemas. Como pode viver assim…?
Sua irritação persistiu por mais alguns minutos. Graças à vodca, seu discurso foi mais longo que o normal.
Ele suspirou. — Prevendo isso, já fiz alguns. Dá para ser menos previsível às vezes? Espere um pouco.
O Chapeleiro Maluco subiu para o segundo andar. Embora tivesse esvaziado uma garrafa inteira de vodca, ele estava firme como uma rocha.
Alguns momentos depois, ele voltou com uma caixa cheia de adesivos. SoYoon colocou na bolsa depois de pagar por eles. Ao fechar a bolsa, o Chapeleiro Maluco perguntou: — O que achou do smartphone?
— Bom. Tem certeza de que não tem planos de revelá-lo em Mundo Além?
— Não tenho.
O Mundo Além estava cheio de pessoas com poderes mágicos, então a maioria era fraca quando se tratava de tecnologia. Eles ainda não conseguiram descobrir o mecanismo da cápsula mágica que o Chapeleiro Maluco inventou quando tinha apenas 18 anos. Embora ele odiasse concordar com Heart, sua suposição de que o smartphone seria inútil em Mundo Além provavelmente estava certa.
— Se eu quisesse fazer isso, já teria tentado vender um telefone flip ou slide.
A principal razão para não fazer isso foi que ele estava com preguiça de fazê-lo. Depois de ver o que as cápsulas mágicas faziam à população, o Chapeleiro Maluco estava determinado a não mostrar a Mundo Além nenhuma de suas outras criações.
— O mais importante para mim é que fiz isso com minhas próprias mãos. Não tenho interesse em dinheiro ou fama.
— Claro que não, Sr. Milionário.
SoYoon se levantou de seu assento. O Chapeleiro Maluco a seguiu com os olhos e murmurou baixinho.
— Você come bem.
— O quê?
— Não gosta de álcool?
— Do que você está falando tão de repente?
— Deixa para lá… Você pode ir.
SoYoon saiu de casa com a sensação de ter sido expulsa.
Na tarde seguinte, SoYoon recebeu uma tarefa do Chapeleiro Maluco. Era um pedido para pegar itens domésticos. Mas, diferentemente de seus pedidos habituais, ele listou coisas como leite, manteiga, sal, outros mantimentos, uma panela e outros utensílios de cozinha.
SoYoon foi direto para o mercado da Central. Normalmente Março cuidaria dessas tarefas, mas para o Chapeleiro Maluco era diferente. A última vez que disse a Março para fazer isso, ela ouviu tanta bronca que decidiu que, por menor que fosse a tarefa, ela a faria pessoalmente.
Enquanto caminhava com uma cesta cheia de coisas, o alerta de mensagem do seu smartphone tocou. Era uma mensagem de Heart para passar pela casa dele se tivesse tempo.
Por causa disso, ela passaria pouco tempo conversando com o Chapeleiro Maluco depois de deixar as compras antes de ir para a casa de Heart. Eram 3h36. Ela chegaria na casa de Heart um pouco antes das 16h30.
Ela correu para a casa de Heart e foi direto para o escritório dele. No momento em que chegou à porta, um cheiro doce atingiu suas narinas.
— Bem-vinda.
Os dois se sentaram lado a lado e deixaram o tempo passar. Heart observou SoYoon comer sete macarons coloridos e engolir tudo com um pouco de café.
Heart tocou seus lábios. — Ficou um pouco aqui.
SoYoon ficou quieta enquanto Heart removia as migalhas. Ela estava encarregada de lidar com todos os tipos de coisas vis no País das Maravilhas, mas às vezes Heart a tratava como uma boneca de vidro.
Ele tirou as mãos dos lábios dela e passou os dedos pelos cabelos dela.
— Jante antes de sair.
Com essas palavras, SoYoon olhou para o relógio pendurado na parede: 4h58. Ainda havia tempo antes da consulta, mas não o suficiente para jantar.
— Tenho algo para fazer.
— Que pena.
Os dedos que brincavam com seu cabelo desceram lentamente pelo pescoço. Suas mãos calejadas e masculinas percorreram suavemente sua pele.
— Branquinha.
O apelido que a fez se sentir como um animal de estimação foi dito com uma doçura induzida por feromônios. SoYoon se encolheu reflexivamente. Heart riu alto e a deixou ir.
— Você cresceu muito. Quantos anos terá este ano?
— Vinte e um.
Na verdade, ela tinha 36 anos. SoYoon acrescentou em sua mente. Heart riu novamente. Dessa vez a risada foi mais reservada.
— Já faz tanto tempo. Parece que nos conhecemos ontem, mas o tempo voa.
— Falando isso, você parece uma velha.
— Achei que aquela fosse a sua versão adulta…
— Também não é como se você me tratasse como uma criança naquela época.
SoYoon se levantou. Ela poderia acabar jantando aqui se ficasse mais tempo.
Heart não a impediu.