Epílogo

Uma Existência Especial

O EXAME ESPECIAL DO JOGO de Sobrevivência havia dado lugar ao Exame Especial de Coleta de Fichas e, enfim, a longa provação de seis noites e sete dias chegara ao fim. Pouco depois das oito da noite, após todos os alunos do terceiro ano serem informados dos resultados, fomos levados de volta ao navio e reunidos quase imediatamente no refeitório.

As únicas exceções foram os alunos que haviam sido expulsos.

Eles talvez já tivessem sido isolados em algum lugar ou, quem sabe, enviados embora em uma embarcação menor. De qualquer forma, provavelmente não havia nenhum estudante que soubesse para onde haviam sido levados.

O jantar, ligeiramente atrasado pelos acontecimentos do dia, estava prestes a começar.

O refeitório estava repleto de pratos tão luxuosos que pareciam irreais depois do tempo que passamos na ilha desabitada. Travessas cobriam as mesas, que mal deixavam espaço entre elas, cada uma oferecendo comidas das quais havíamos sentido falta durante toda a semana.

Muitos alunos aguardavam impacientemente o início da refeição. Mas, para a turma que havia perdido um colega, até mesmo tamanha fartura devia parecer apagada e sem vida. Ao redor deles, não havia qualquer clima de celebração.

— Desculpa por aquilo, Yoshida — eu disse. — Acabei colocando um peso nas suas costas bem no final, mas você me ajudou muito.

Durante esse exame especial, eu havia pedido a Yoshida que assumisse vários papéis importantes. Antes de qualquer outra coisa, queria expressar minha gratidão por isso.

— Nah, tudo bem… — respondeu Yoshida. — Aquela coisa que você me disse foi eficaz demais, então eu não tinha muito como argumentar.

Ele inclinou a cabeça para trás, encarando o teto, e soltou um longo e pesado suspiro.

— Quando alguém fala algo daquele jeito para você, não dá para simplesmente negar, né? Mas, sinceramente, foi bastante coisa para lidar.

Mesmo sorrindo de forma amarga, Yoshida passou um braço pelos meus ombros e deu alguns tapinhas leves.

— Vocês dois parecem ter ficado bem próximos — comentou Hashimoto do assento à minha frente. Seus olhos se estreitaram enquanto estudava meu rosto. — Que tal me contar essa história também, Ayanokoji?

— O que você quer saber?

— Você sabe do que estou falando, não sabe? — disse Hashimoto. — Sobre a Shiina… Aquela realmente foi a melhor forma de lidar com a situação?

Ao ouvir aquilo, a expressão de Yoshida se tornou ligeiramente complicada. Não era difícil entender o que ele estava pensando: “Esta não era nem a hora nem o lugar para tocar nesse assunto.”

— Não acho que tenha tomado a decisão errada — depois de responder, continuei: — Você teria preferido um resultado diferente, Hashimoto?

— Não… — respondeu ele, deixando a palavra se prolongar por um instante. — Eu só queria perguntar. Se você está satisfeito com isso, então acho que basta.

Encerrando o assunto prematuramente, Hashimoto se recostou na cadeira e cruzou os braços atrás da cabeça. Seu olhar se desviou de mim e se voltou para a Classe A.

— Ainda assim — disse Yoshida, acompanhando a direção do olhar de Hashimoto —, não acha difícil dizer se a Classe A venceu ou perdeu?

Sua expressão ficou séria ao dar sua opinião sincera.

— Uma vitória é uma vitória — respondi. — Afinal, eles garantiram pontos para a turma.

O Grupo 8, ao qual Horikita e Ichinose pertenciam, havia chegado em primeiro ao objetivo. Aproveitando ao máximo o multiplicador de 100%, eles também conquistaram o primeiro lugar no ranking dos grupos, garantindo 100 pontos de classe tanto para a Classe A quanto para a Classe D.

Além disso, a turma de Horikita também havia conquistado a recompensa especial individual, elevando seu ganho total para 200 pontos de classe. Era o suficiente para consolidar sua posição como Classe A, que até então corria risco.

No ranking individual de Fichas divulgado, Ryuen havia ficado em segundo lugar. A diferença para o primeiro colocado fora de apenas dois Fichas. Se a classificação tivesse mudado sequer uma posição, a recompensa especial teria ido para a Classe B. Para eles, aquilo certamente devia ser frustrante.

O único consolo era que também haviam terminado em segundo lugar no ranking dos grupos, o que lhes permitiu obter 50 pontos de classe.

— Mas não dá para ignorar o fato de que a Shinohara foi expulsa, certo? O estado mental do Ike parecia bem abalado.

— Então a Shinohara foi expulsa, é? — disse Hashimoto com um sorriso malicioso. — O que diabos você fez, Ayanokoji?

Ao ouvir aquelas palavras, olhei ao redor do refeitório. Ike não estava em lugar algum. A essa altura, provavelmente já estava deitado na enfermaria, tentando descansar.

Pouco depois, o jantar em estilo buffet começou. Ao mesmo tempo, os alunos do terceiro ano finalmente receberam permissão para circular livremente.

Como era de se esperar, a maioria dos estudantes se reuniu com suas próprias turmas, formando grupos familiares ao redor das mesas. Mas, aqui e ali, alunos que eram próximos apesar de pertencerem a classes diferentes ultrapassavam essas barreiras, sentavam-se por perto e começavam a conversar animadamente, colocando para fora tudo aquilo que não haviam tido oportunidade de dizer nos últimos dias.

— Ayanokoji-kun….. você poderia me conceder um momento?

Quem se aproximou de mim sem carregar nenhum prato foi Horikita.

Durante nossa estadia na ilha desabitada, não havíamos conversado diretamente. Pelo fato de ela ter vindo sem pegar comida, imaginei que quisesse organizar tudo o que havia acontecido durante o exame especial antes de começar a jantar.

Como era permitido sair para o convés, mudamos de lugar.

E então—

— Incluindo a questão da Shinohara — eu disse a Horikita enquanto ela se colocava ao meu lado —, desta vez vamos alinhar nosso entendimento sobre toda a sequência de acontecimentos.

Com isso, comecei a explicar.

*

Todos os mecanismos por trás do plano já haviam sido colocados em movimento antes da noite do terceiro dia, muito antes de eu entrar em contato com Ichinose. Mais precisamente, tudo começou na manhã do segundo dia, durante uma conversa com Katsuragi que durou menos de cinco minutos.

— Desculpe por tomar seu tempo tão cedo pela manhã.

Sem conseguir chegar a um acordo comigo, Katsuragi havia desistido da discussão e começado a se afastar. Eu o havia considerado uma das pessoas mais adequadas para ouvir aquele plano. Enquanto observava suas costas se distanciarem, decidi lançar uma ideia para ele.

— Acho que a Ibuki deveria ser expulsa — eu disse. — Claro, não espero que você concorde.

Katsuragi parou apenas por um instante.

— Então por que dizer isso?

— Formulei mal minhas palavras. — Corrigi-me. — Eu vou fazer com que a Ibuki seja expulsa neste exame especial.

— Entendo…. — sua voz ficou ligeiramente mais baixa. — Então isso é uma declaração de guerra.

Provavelmente ele não tinha intenção de se virar. Mas, depois que declarei minhas intenções de forma tão direta, já não podia simplesmente ignorar aquilo. Katsuragi voltou seu olhar para mim.

— Considerando a forma como esta escola funciona, talvez seja natural que alunos sem habilidade acabem sendo expulsos. Talvez até mesmo eliminar deliberadamente esses alunos não seja, por si só, algo mau.

Sua expressão não mudou, mas o peso em sua voz aumentou.

— No entanto, não consigo aceitar essa forma de pensar. Quando eu estava em conflito com Sakayanagi pela liderança da turma, Yahiko ficou ao meu lado. E, por causa de uma escolha arbitrária, ele foi eliminado. Claro, isso aconteceu porque eu não tinha poder para impedir. Mas justamente por isso eu entendo como é estar do lado que é descartado. Não tenho a intenção de dizer algo ingênuo como “vou proteger todos”. Porém, jamais agirei partindo do princípio de que devo sacrificar um companheiro.

Ele havia visto um amigo que o admirava ser expulso, e ele próprio acabara sendo afastado de sua turma. Pelo menos, as palavras de Katsuragi carregavam um peso inquestionável.

— Então posso interpretar isso como alguém capaz de lutar sem misericórdia, desde que seja para proteger seus companheiros?

— Claro — respondeu Katsuragi. — Essa é a minha intenção.

— Nesse caso, talvez nós possamos cooperar.

— O quê….?

— Um representante pode receber uma grande quantidade de Fichas sob sua responsabilidade — expliquei. — Em outras palavras, esse representante possui uma margem considerável de decisão sobre como esses Fichas serão administrados. Quero que você use essa autoridade para tratar a Ibuki da forma mais desfavorável possível.

Os olhos de Katsuragi se estreitaram. Continuei:

— Naturalmente, a quantidade de Fichas que a Ibuki poderá obter cairá drasticamente.

— Não entendo o que você está dizendo. Não tenho a menor intenção de expulsar a Ibuki…

— Pense objetivamente — interrompi. — O que acontece se você fizer exatamente o que eu estou dizendo?

Katsuragi permaneceu em silêncio. Continuei:

— A Ibuki ficará visivelmente para trás na competição de Fichas. Quando isso acontecer, os alunos do Grupo 3 começarão a pensar a mesma coisa: “Desde que eu tenha mais Fichas do que aquela aluna, estarei seguro.” Depois disso, basta compartilhar anonimamente a quantidade de Fichas da Ibuki e ajustar a distribuição conforme necessário. Se fizer isso, todos poderão se remover da lista de candidatos à expulsão.

— Essa é uma proposta absurda — disse Katsuragi. — Você realmente acredita que eu tomaria uma atitude tão desvantajosa para a Classe B?

— Estou propondo isso justamente porque não é desvantajoso.

No instante em que disse isso, Katsuragi pareceu perceber a verdade escondida por trás da minha sugestão. Sua expressão mudou levemente.

— Não me diga… — ele murmurou. — Quer dizer que ela é uma isca?

— Exatamente. Vamos usar a Ibuki apenas como alvo — respondi. — Alguém para quem os outros possam olhar e acreditar que, desde que permaneçam à frente dela, evitarão a expulsão. Os verdadeiros alvos são os alunos da Classe A.

Katsuragi me encarou.

— Você está falando sério?

— O objetivo final dos alunos desta escola é se formar na Classe A. Se isso é o que mais importa, então a prioridade deve ser enfraquecer a Classe A que atualmente ocupa o topo e derrubá-la. Se Kushida ou Wang forem expulsos, isso representará uma perda significativa de força. Se Ike ou Shinohara forem expulsos, os danos talvez não se limitem ao término de um relacionamento. Dependendo da situação, pode surgir a possibilidade de uma expulsão voluntária para acompanhar o parceiro, permitindo potencialmente eliminar duas pessoas de uma só vez. Para as três classes que perseguem a Classe A, eles são candidatos ideais à expulsão.

— Mas isso realmente aconteceria com tanta facilidade? — perguntou ele finalmente. — Mesmo que eu tratasse a Ibuki de forma desfavorável, normalmente as pessoas não acreditariam que eu descartaria uma colega de classe tão facilmente. Elas suspeitariam que eu estava apenas sendo duro temporariamente ou que pretendia transferir Fichas para ela mais tarde. Naturalmente, antes de cruzarem a linha de chegada, tentariam confirmar a quantidade exata de Fichas dela.

— Não me importo se perceberem — respondi. — Na verdade, é até mais conveniente se começarem a desconfiar.

Prevendo como os acontecimentos se desenrolariam a partir dali, expliquei a Katsuragi o plano que havia elaborado, incluindo o fato de que o som produzido durante uma transferência de Fichas podia ser silenciado.

*

O navio já havia se afastado da ilha desabitada e agora navegava pelo mar escuro.

Além do convés, as águas se estendiam infinitamente pela noite, interrompidas apenas pelo som baixo da embarcação cortando as ondas. A ilha que nos havia abrigado durante a última semana agora estava em algum lugar atrás de nós.

Com o exame finalmente encerrado, era hora de revisitar a sequência de acontecimentos que havia levado àquele desfecho. Ao preparar o terreno com antecedência, conseguimos condicionar todo o grupo a enxergar Ibuki Mio como o alvo óbvio.

A negligência calculada de Katsuragi, executada sob a impecável bandeira da igualdade absoluta, ampliou gradualmente a diferença de Fichas. Enquanto isso, movida por uma mistura explosiva de genuíno desespero e indignação cega, uma Ibuki completamente alheia à situação desempenhou seu papel com perfeição.

Ao presenciarem aquela aflição genuína diante dos próprios olhos, Shinohara e Ike chegaram exatamente à mesma conclusão: “Desde que fiquemos à frente dela, nossa sobrevivência estará garantida.”

O importante era fornecer a eles uma referência confiável. Um número que parecesse garantir a segurança contra a expulsão. Mas a quantidade de Fichas comunicada a todos os grupos não correspondia ao número real de Ibuki. Ela era apenas a isca. O valor usado como referência pertencia aos verdadeiros alvos: Shinohara e Ike.

— Eu tinha a impressão de que a Ibuki-san estava acumulando mais Fichas do que o esperado — disse Horikita. — Também havia alunos cuja quantidade real era menor do que os números que estavam sendo divulgados…

Os ganhos individuais de Shinohara e Ike estavam entre os mais baixos, mas eles receberam uma parte dos Fichas desviados da cota de Kushida. Mesmo dividindo esse montante igualmente entre os dois, o total de Fichas deles ainda aumentava consideravelmente em relação ao que possuíam originalmente.

— Você deve ter tido bastante trabalho para fazer todos esses ajustes.

Reconhecendo as dificuldades enfrentadas por Horikita, contei a ela o que havia acontecido nos momentos finais. No último dia, conforme o fim do exame se aproximava, Shinohara e os demais começaram a considerar uma possibilidade específica.

“Se é o Ayanokoji, ele pode já ter preparado alguma coisa.”

Até alcançarem o objetivo, quando as transferências de Fichas se tornariam impossíveis, eles continuaram vigilantes para impedir que Katsuragi e os outros tivessem contato com Ibuki. Ainda assim, suas suspeitas não desapareceram.

A quantidade de Fichas que Ibuki possuía era realmente inferior à deles?

Eles queriam confirmar o número verdadeiro de alguma forma. O contador exibido no relógio de pulso não podia ser falsificado. Era o único método que permitia verificar um valor absolutamente preciso.

Por isso não podíamos transferir Fichas para Ibuki até o último instante.

Para Shinohara e os demais, existia uma estrutura de segurança em duas camadas. Primeiro, Ibuki seria expulsa. E, caso algo inesperado acontecesse, Kushida seria expulsa em seu lugar.

Partindo dessas premissas, todos mantiveram os olhos fixos no Objetivo enquanto ele se aproximava gradualmente. Tanto Katsuragi quanto eu previmos que o momento necessário para salvar Ibuki seria extremamente apertado.

Preparamos diversas simulações. Qual delas acabaria ocorrendo dependeria, em certa medida, das ações de Shinohara e dos outros. O plano principal era fazer Yoshida, que havíamos posicionado pouco antes do objetivo, entrar em contato com Ibuki e transferir os Fichas secretamente para ela. Caso isso não fosse possível, arranjaríamos algum motivo para provocar uma discussão com Ibuki, impedir que ela chegasse ao objetivo e ganhar tempo.

Entre as possibilidades consideradas, também tínhamos Kushida como plano de contingência. Então, por acaso, ocorreu um incidente. Ibuki insistiu que queria me dar um soco.

Esse acontecimento inesperado criou uma oportunidade. Pedi a Sanada, que já havia recebido previamente todas as informações necessárias, que se aproximasse de Kushida e explicasse rapidamente a situação. Incluindo a parcela destinada a Ibuki que havíamos recebido de Katsuragi, transferimos Fichas suficientes para garantir sua sobrevivência.

— Parece que você deu alguns conselhos para a Shinohara e seus companheiros — eu disse —, totalmente preparada para um contra-ataque da minha parte.

— Sim… — respondeu ela em voz baixa. — Eu os avisei de que o fato de Ibuki-san estar sendo encurralada estava ocorrendo exatamente de acordo com o seu plano. E que, dependendo da situação, a ponta de lança desse plano poderia acabar se voltando contra Shinohara-san e os outros…

— Você não errou ao entrar em contato com a Shinohara — respondi. — Afinal, percebeu que minha tentativa de expulsar a Ibuki poderia ser apenas um blefe.

— Eu realmente senti que havia algo estranho — começou Horikita. — Mesmo que você tivesse dito ao Katsuragi-kun que pretendia expulsar a Ibuki-san, eu não conseguia imaginá-lo aceitando isso sem questionamentos. E ele também não seguiria adiante ignorando completamente Ryuen-kun. Então pensei que você talvez tivesse revelado a eles que o verdadeiro plano era expulsar alguém de outra classe. Quando considerei essa possibilidade, concluí que o alvo seria a nossa turma. Foi por isso que alertei fortemente Shinohara-san e os outros para continuarem monitorando a quantidade de Fichas da Ibuki-san e, se possível, verificarem o número pessoalmente…

— Na prática, acho que Shinohara lidou bem com a situação — respondi. — Por mais forçado que tenha sido o método dela, conseguiu confirmar o número com os próprios olhos.

— Mas… — a voz de Horikita vacilou levemente. — No fim, eu não consegui protegê-la. Eu não queria que ninguém fosse expulso. Era isso que eu pensava, e mesmo assim… — ela soltou um leve suspiro. — As coisas nem sempre acontecem da forma que esperamos, não é?

— Não havia muito o que fazer. O fato de Ichinose ter acabado no mesmo grupo que você foi extremamente importante. Conseguir construir uma estrutura de cooperação eficiente e unir todos em torno do objetivo de obter uma boa colocação como grupo foi uma grande força. Além disso, como o grupo que continha o líder podia conquistar uma recompensa considerável, esses fatores acabaram produzindo um efeito sinérgico. No entanto, este Exame Especial possuía uma natureza dupla: cruzar o objetivo cedo era vantajoso para vencer, mas, ao mesmo tempo, se considerássemos as consequências de uma derrota, chegar mais tarde era o mais vantajoso. Conseguir ambos os benefícios simultaneamente nunca seria fácil.

Como o objetivo podia ser validado pela passagem da maioria dos integrantes, Horikita poderia ter permanecido para trás com o telefone em vez de concluir a prova junto dos demais. Tecnicamente, essa possibilidade existia. Mas havia limites para o que uma única pessoa podia fazer sozinha. Acima de tudo, ela provavelmente também não queria perder sequer um Ficha.

— Se eu tivesse guiado pessoalmente Shinohara-san e os outros até o objetivo — disse Horikita —, talvez a situação tivesse sido diferente.

— Talvez. Mas, no fim das contas, mudar quem seria expulso nunca seria algo simples. Se você ajudasse uma pessoa, outra acabaria caindo para a última colocação. A partir daí, criar um sistema capaz de proteger simultaneamente a Classe A e a Classe D com absoluta certeza era praticamente impossível.

— Você tem razão — respondeu Horikita. — Salvar Ike-kun e Shinohara-san inevitavelmente criaria uma distorção. E, quando isso acontecesse, não teríamos como saber qual classe, ou qual pessoa, acabaria se tornando o sacrifício…

Se fosse necessário apontar um fator decisivo, provavelmente seria o fato de Horikita ter sido forçada a lutar em um palco que eu havia preparado. Ao fazer os acontecimentos girarem em torno do Grupo 3, a distância física se tornou uma pesada corrente, limitando tudo o que ela poderia fazer de fora do centro do conflito.

— Você não poderia ter escolhido Kushida-san ou Wang-san como alvo? — perguntou Horikita. — Para nossa turma, perder qualquer uma delas teria sido uma perda muito maior. Por que não fez isso?

— Eu simplesmente escolhi derrubar o alvo mais fácil.

Foi assim que respondi. Mas a verdade era diferente. No caso de Kushida, eu apenas a havia feito parecer uma candidata à expulsão. Desde o início, jamais tive a intenção de eliminá-la. Pelo menos, ela era incomparavelmente mais capaz do que Shinohara ou Ike. Mii-chan também era um recurso valioso. Além disso, uma nova utilidade para Kushida começava a surgir.

O que importava para mim era fortalecer a Classe A também. Se uma planta produz brotos laterais demais, ela pode até se espalhar mais, mas os frutos que produz acabam menores. Era justamente por isso que a Classe A precisava escolher cuidadosamente, um por um, quais caules deveriam continuar crescendo.

— Se você vai culpar alguém — eu disse —, culpe a mim, não a si mesma.

Logo depois que eu disse aquilo, percebi alguém se aproximando por trás.

— Não acho que isso esteja totalmente certo. Você não foi quem decidiu quem seria expulso, Ayanokoji-kun.

Talvez ela tivesse nos visto sair para o convés. Surgindo de um canto pouco iluminado, Kushida apareceu diante de nós. Eu já havia notado que ela estava escutando nossa conversa às escondidas, então sua presença não me surpreendeu.

— Eu poderia ter ficado com os Fichas que o Sanada-kun me entregou e seguido direto para o objetivo — disse Kushida. — Se tivesse feito isso, a Ibuki-san teria sido expulsa no final.

Kushida mencionou por conta própria os acontecimentos dos bastidores, algo que eu não havia considerado necessário explicar.

— Você… — Horikita olhou para ela. — Foi você quem decidiu expulsar a Shinohara-san?

Kushida ignorou a pergunta. Em vez disso, expressou algo que aparentemente estava em sua mente havia algum tempo.

— Entregar ou não aqueles Fichas para a Ibuki-san foi uma aposta bem arriscada, não foi? Quando tentei seguir para o objetivo, o Katsuragi-kun parecia realmente desesperado.

— Talvez.

Respondi como se estivesse concordando com a interpretação de Kushida. Mas a verdade era um pouco diferente. Eu já havia concluído que era seguro confiar a ela o núcleo mais importante do plano: os Fichas que decidiriam tudo.

Um julgamento entre vida e morte colocado nas mãos de Kushida Kikyo. Tudo o que eu precisava fazer era levá-la a desejar eliminar Shinohara ou Ike mais do que Ibuki. Desde o momento em que este exame especial começou, eu havia plantado uma única semente.

O atrito causado pela forma como tratei Shinohara e Ike.

Ignorei seus cumprimentos.

Questionei suas capacidades.

Pouco a pouco, o ressentimento foi se acumulando dentro deles.

Ao mesmo tempo, valorizei Kushida e a tratei com cuidado, como se ela fosse uma pessoa excepcional, alguém em quem se podia confiar. Meu comportamento foi tão evidente que até meus atuais colegas da Classe D começaram a desconfiar.

Aquilo foi além da simples ideia de que eu ainda tinha algum apego à turma de Horikita. Eles poderiam facilmente começar a suspeitar de que eu confiava mais nos alunos da classe dela do que nos colegas que agora estavam ao meu lado.

Era um ambiente desagradável. E, naquele ambiente, a raiva que surgisse naturalmente acabaria sendo direcionada para Kushida, justamente a pessoa que Shinohara já detestava.

A hostilidade de Shinohara em relação a ela tornou-se intensa. Ela queria, de alguma forma, fazer Kushida sofrer. Eu havia conduzido os acontecimentos para que esses sentimentos surgissem. E, uma vez que isso acontecesse, também seria mais fácil desestabilizar a harmonia da Classe A e levar Kushida ao isolamento dentro do grupo.

Tudo ocorreu exatamente como planejado. Um ambiente criado por minhas próprias mãos.

— Você viu a cara do Ike-kun quando os resultados foram anunciados? — perguntou Kushida com um sorriso. — Foi incrível, não foi?

Durante o anúncio dos resultados, realizado há poucos instantes, os dois receberam um choque como se tivessem sido atingidos por um raio.

Qual dos dois seria expulso era uma parte que nem mesmo eu sabia.

— Pessoalmente, eu teria preferido que a Shinohara-san fosse a que permanecesse — disse Kushida. — Mas acho que não havia muito o que fazer.

Ao que tudo indicava, Shinohara nunca teve a intenção de entregar a Kushida os Fichas que havia prometido. Logo no início, ela os dividiu e transferiu tudo para Ike.

Mas isso acabou se tornando um erro fatal. No último momento, sem ter outra escolha, Shinohara entregou dez Fichas a Kushida. Como consequência, seu total acabou ficando abaixo do de Ike.

Shinohara Satsuki, que caiu para a última colocação, recebeu a ordem de expulsão e entrou em pânico.

Por sua vez, Ike perdeu completamente o controle.

Quando começou a se debater, Sudou e os outros precisaram se esforçar para contê-lo.

Kushida sorriu satisfeita ao se lembrar daquela cena.

— Não acho que tenha feito nada de errado — disse ela. — Se as coisas tivessem dado errado, a Shinohara-san poderia ter me expulsado. Eu apenas devolvi o favor.

Talvez fosse apenas isso que ela quisesse dizer. Parecendo satisfeita, Kushida girou levemente nos calcanhares.

— E, para não haver mal-entendidos, vou deixar uma coisa clara — acrescentou. — A única razão pela qual deixei a Ibuki-san permanecer foi porque não achei que ela se tornaria uma ameaça. Não existe nenhum outro motivo além desse.

Ela se afastou como se deixasse claro que não precisava de resposta. Talvez Horikita tivesse sentido sua desconfiança em relação a Kushida aumentar ainda mais. Minha impressão, porém, era exatamente o oposto.

Não havia dúvida de que Kushida havia se desprendido de uma de suas camadas por causa desse incidente. Não… seria mais correto dizer que ela passou por uma grande transformação. Quando Horikita descobrisse que Kushida havia revelado sua verdadeira natureza diante de alunos de outras classes, provavelmente chegaria à mesma conclusão.

— Ainda há muitas coisas que quero perguntar a você — disse Horikita. — Também estou curiosa sobre os seus próprios resultados neste exame…

— Vamos deixar isso para outra hora — respondi. — Se necessário, posso reservar um tempo para conversarmos.

— Você tem razão…. — Horikita lançou um olhar para o refeitório. — Vou voltar. Existem vários problemas que não posso deixar sem supervisão.

Mesmo que a turma tivesse vencido, o fato de terem perdido uma colega como preço daquela vitória não desapareceria. Eles precisariam discutir não apenas como lidar com o estado emocional de Ike, mas também os passos a seguir dali em diante.

Se eu voltasse junto com Horikita, talvez acabasse envolvido em alguma situação problemática. Seria melhor retornar um pouco mais tarde.

Assim, deixado para trás, permaneci sozinho no convés enquanto o navio continuava cortando o mar escuro.

Aquele exame especial havia sido repleto de reviravoltas. nE, ainda assim, o que retornava à minha mente de forma mais vívida não era Shinohara nem qualquer outra pessoa envolvida. Apenas uma pessoa ocupava meus pensamentos.

Shiina Hiyori.

Naquele momento, meus pensamentos estavam voltados exclusivamente para ela.

*

Depois de observar Ibuki, Shinohara e os outros alcançarem o objetivo, lancei um olhar para o relógio em meu pulso. Calculei mentalmente o tempo restante. Já não havia margem para erros.

— Yoshida, vou deixar o resto com você.

— O quê? — perguntou Yoshida, pego de surpresa. — O que quer dizer com “deixar o resto comigo”?

Contei brevemente que havia recebido uma mensagem de Ryuen e que Hiyori estava esperando.

— E-Espera, o quê!? — A voz de Yoshida falhou quando ele finalmente entendeu. — Se você fizer isso, os Fichas vão…

— Eu sei. No mínimo, nossas chances de conseguir a recompensa especial desaparecerão completamente.

Se eu cruzasse o objetivo naquele momento, havia uma grande possibilidade de terminar em primeiro lugar. Abrir mão disso era praticamente o mesmo que jogar cem pontos de classe no lixo.

— Mesmo assim, eu vou buscá-la.

Yoshida me encarou, claramente confuso.

— Olha, se pudermos ajudá-la, então claro que eu gostaria. Mas a Shiina é uma aluna da Classe B, certo? Não importa como você veja isso, deixá-la para trás seria…

— Ela é especial.

— Hã…?

— Shiina Hiyori é… alguém especial para mim.

— Especial? Você quer dizer…

— Se a Shiraishi estivesse esperando na mesma situação, você conseguiria abandoná-la?

— Isso… — as palavras de Yoshida ficaram presas na garganta. — Não… isso eu não…

Diante daquela única frase, que dispensava qualquer explicação adicional, Yoshida levou as mãos à cabeça.

— Droga… se você coloca dessa forma, eu não consigo te impedir…

— Foi exatamente por isso que eu disse.

— Ah, sério… — ele soltou um suspiro pesado antes de finalmente ceder. — Tudo bem. Mas você consegue chegar a tempo? A distância é bem grande.

— Não será um problema.

— Não será um problema, é?

Yoshida murmurou isso e então sua expressão mudou quando outra preocupação lhe ocorreu.

— Ah, espera. E os Fichas que você precisa dar para a Shiina? E o multiplicador de 70%? A Shiina recebeu apenas um Ficha, não foi?

— Não sei se ela tem apenas um ou mais do que isso. Mas, de qualquer forma, se ela tiver apenas um, não conseguirá evitar a expulsão. Também seria difícil reunir vinte milhões de pontos privados em tão pouco tempo. Neste momento, a única coisa que posso fazer é transferir para ela os Fichas necessários.

— No pior dos casos, você vai acabar em último lugar…

— Isso pode acontecer.

Yoshida ficou me encarando por alguns instantes.

— Espere um minuto… não, trinta segundos já bastam.

Assim que disse isso, Yoshida se virou e chamou Sanada e Morishita, trazendo os dois imediatamente.

— Temos mais Fichas do que o necessário para ficar acima da linha de segurança — disse Yoshida. — Peguem uma parte dos nossos.

Morishita estreitou os olhos.

— E quem exatamente você pensa que é, Ayanokoji Kiyotaka, para exigir Fichas sem sequer nos dizer o motivo?

— Nós só precisamos deles, Morishita — respondeu Yoshida. — Eu explico depois.

— Entendido — disse Sanada sem hesitar. — Por favor, fique com eles.

Ele concordou imediatamente. Já Morishita observou a atitude de Yoshida e soltou um murmúrio resignado.

— Acho que não tem jeito.

Então voltou seu olhar para mim.

— Isso vai gerar uma dívida enorme — declarou. — Espero ser reembolsada pelo menos dez milhões de vezes ao infinito, se possível, certo?

Era uma unidade de medida tão misteriosa que até uma criança provavelmente hesitaria antes de inventá-la.

Ainda assim, apesar do absurdo de suas palavras, Morishita também estendeu o relógio em minha direção.

*

Já eram quase sete da noite. Em breve, o exame especial chegaria ao fim e, em algum lugar além da costa, o navio faria ecoar seu poderoso apito por toda a ilha.

O sol poente iniciava sua lenta descida rumo ao horizonte. Acima dele, o céu passava gradualmente de um laranja suave para um vermelho mais profundo, com cada tonalidade se misturando silenciosamente à seguinte. O mar refletia essas cores como um imenso espelho, apenas para que as ondas inquietas as fragmentassem em incontáveis reflexos luminosos que mudavam constantemente a cada movimento.

Em intervalos irregulares, uma brisa carregada de sal atravessava a praia, soprando sobre a areia que ainda não havia secado completamente. Em meio àquela paisagem tranquila, uma única garota permanecia sozinha.

— Hiyori.

Chamei seu nome suavemente, tentando não assustá-la. Talvez porque a areia macia tivesse abafado meus passos, ela demorou uma fração de segundo a perceber minha presença. Seus ombros reagiram levemente, mas ela não se virou de imediato.

— Eu nunca imaginei… — disse após uma breve pausa, em voz baixa — que você realmente viria.

Suas palavras se misturaram suavemente ao som de uma onda quebrando na praia. O mar estava calmo, mas dali tão perto era possível ouvir claramente cada pequena onda se dobrando sobre si mesma antes de recuar, repetindo o mesmo som suave inúmeras vezes.

Dei alguns passos adiante. Meus pés afundaram levemente na areia, e o som surgiu com um pequeno atraso sob o silêncio da praia, até que parei logo atrás dela. Então avancei mais alguns passos e me coloquei ao seu lado.

Cerca de um braço de distância nos separava. Uma distância ambígua: não próxima o suficiente para que pudéssemos nos tocar, mas também não distante.

— Isso é estranho, então — observei. — Você não concordou em seguir a estratégia do Ryuen justamente porque acreditava que eu apareceria?

— Eu não tinha confiança nenhuma nisso — respondeu Hiyori.

Seu olhar permaneceu voltado para o horizonte. Ela não olhou para baixo, nem para mim. Apenas continuou observando a linha onde o mar encontrava o céu, como se acompanhasse seus próprios pensamentos.

— Para começar — continuou ela —, isso nem pode ser chamado de estratégia. Foi apenas o desfecho desesperado ao qual a Classe B chegou depois de não encontrar nenhuma forma segura de vencer este exame especial.

Enquanto falava, seus delicados dedos se moveram, segurando suavemente a barra da camisa esportiva.

— Enquanto você fizer parte da Classe B, é natural que uma parte da responsabilidade recaia sobre você, Hiyori — eu disse. — Mas esse peso deveria ser compartilhado por toda a turma. Ou melhor, a responsabilidade maior pertence ao Ryuen, que atua como líder. Não havia motivo para assumir tudo sozinha, havia?

Pela primeira vez, voltei meu olhar para seu perfil. A luz enfraquecida do entardecer desenhava um brilho suave sobre seus traços, projetando sombras delicadas dos cílios sobre as bochechas. À medida que a brisa do mar agitava seus cabelos, eu conseguia vislumbrar breves fragmentos de sua expressão.

Ela não demonstrava qualquer sinal de alívio ou felicidade por eu ter vindo buscá-la. Em vez disso, continuava encarando o oceano. E, em seu olhar, estava gravada uma tristeza profunda.

— Eu simplesmente senti que precisava fazer alguma coisa — ela sussurrou. — Achei que precisava fazer a única coisa que só eu poderia fazer…

A ponta do seu sapato se moveu sobre a areia, rompendo sua superfície apenas de leve.

Foi um gesto pequeno. Quase insignificante. Mas se repetia sem ritmo, como se seu corpo já estivesse se movendo daquela forma muito antes de eu chegar. Só isso já me dizia há quanto tempo ela estava ali, presa àqueles pensamentos.

— A única coisa que só você poderia fazer, hein?

Nesse sentido, suponho que ainda fosse possível chamar isso de uma estratégia viável. Se fosse qualquer outra pessoa esperando aqui, eu jamais teria aparecido.

Ao longe, uma ave marinha solitária soltou um grito, sua voz tênue contra o ar do entardecer. Ela voou rente à água, deslizando sobre a superfície que escurecia antes de seguir adiante sob a luz carmesim.

— Quando Ryuen me contou, meu primeiro impulso foi ficar longe daqui — eu disse. — Ou, mais precisamente, eu soube instintivamente que vir até aqui era a escolha errada. Aparecer aqui é, sem dúvida, um prejuízo para a minha turma. Se meu único objetivo fosse garantir nossa vitória, vir até aqui não teria mérito algum. Se eu abandonasse você, poderia fazer a Classe B perder um recurso valioso e praticamente garantir a recompensa especial para mim.

Eu não sabia exatamente como os totais dos grupos terminariam, mas minha decisão de estar aqui certamente impactaria a classificação geral.

— Então… — Hiyori perguntou baixinho — por que você veio…?

Pela primeira vez, seu olhar se desviou ligeiramente. Ela ainda não me encarava diretamente. Em vez disso, seus olhos baixaram para algum ponto incerto entre a areia aos seus pés e o mar além dela.

— Talvez eu quisesse me entregar a algo absurdo e irracional — respondi. — Eu estava curioso para saber que tipo de emoção sentiria depois de cometer um erro… uma escolha que normalmente jamais faria.

Não era mentira. Foi a primeira resposta que surgiu em minha mente, e eu a dei exatamente como veio. Mas, assim que a coloquei em palavras, outra resposta emergiu para contradizê-la. Fui obrigado a reconhecer que aquilo que acabara de dizer era apenas um pretexto.

Não era a verdade.

— Não, não é isso — corrigi em voz baixa. — O resultado não importava para mim. Eu simplesmente não queria que você fosse expulsa. Não queria ver um futuro em que Ryuen não a salvaria… um futuro em que você não pudesse ser salva. Eu quero compartilhar esta vida escolar com você nem que seja por mais um único segundo. Essa é a verdadeira razão pela qual eu vim.

Hiyori permaneceu imóvel ao meu lado.

— Eu não sou uma pessoa particularmente interessante — ela respondeu. — Existe algum valor em dizer essas coisas para alguém como eu? Você tem muitos outros amigos, Ayanokoji-kun.

Depois de responder assim, Hiyori continuou sem desviar os olhos do mar.

— Eu achei que esperar aqui fosse covardia. E então senti que até pensar nisso como covardia era injusto.

— Injusto?

— Porque… — Sua voz era suave, quase engolida pelo som das ondas. — Não é assim que as coisas são? Fazer de mim mesma uma isca… realmente acreditar que eu tinha valor suficiente para ser uma… Que presunção terrível. Afinal, não havia nenhuma razão lógica para você jogar fora suas chances de vencer apenas para vir atrás de mim.

Lentamente, em silêncio, Hiyori expôs as emoções turbulentas que carregava. Como se refletisse suas palavras frágeis, sua mão afrouxou o aperto na barra da camisa esportiva, e seus dedos delicados se afastaram do tecido. Então, quando o pano ondulou com a brisa do mar, ela o segurou novamente com suavidade.

— Isso não é justo… — ela continuou. — Mesmo sabendo de tudo isso, eu não consegui evitar guardar uma pequena esperança. Ficava me perguntando se você viria me ver. Se você realmente… viria me salvar.

Duas emoções completamente contraditórias colidiam violentamente dentro de seu coração.

— E porque você realmente veio… isso me deixou tão feliz… mas eu não consegui dizer isso…

Toda vez que suas palavras desapareciam no silêncio, o suave quebrar das ondas preenchia o vazio. Apenas aquele som ritmado marcava discretamente a passagem do tempo.

— O que… — ela sussurrou — eu devo fazer?

Eu não sabia se poderia lhe dar a resposta certa. Mas havia uma coisa que eu podia dizer.

— Neste momento, eu tenho plena consciência disso — falei. — De que estou apaixonado por uma única pessoa chamada Shiina Hiyori.

Essas eram as palavras que precisavam ser ditas. As palavras que tinham de ser ditas. Ainda assim, no instante em que deixaram meus lábios, senti uma súbita e leve secura na garganta.

Não era apenas a sede física causada pelo esforço de correr até aqui. Era o peso esmagador de transformar aqueles sentimentos em palavras. Era a realidade assustadora de que a resposta que eu receberia não era garantida.

Naquele momento, pela primeira vez na minha vida, eu estava completamente à mercê de uma emoção que jamais havia experimentado.

Hiyori finalmente virou o rosto em minha direção. A brisa do mar ergueu seus cabelos esvoaçantes por um breve instante e, quando eles voltaram a cair, seus olhos arregalados encontraram diretamente os meus.

Um segundo depois, estávamos ali, frente a frente.

— Me desculpe… — ela se desculpou.

— Eu sinto muito… — ela se desculpou mais uma vez.

— Eu… eu também amo você, Ayanokoji-kun… Eu sinto tanto… me desculpe…

Era um pedido de desculpas por ter se aproveitado dos meus sentimentos por ela. Agora que finalmente havia pronunciado aquelas palavras, ela não desviou o olhar. Seus olhos marejados permaneceram fixos nos meus enquanto seu peito subia e descia em respirações curtas, tentando desesperadamente recuperar a calma.

Nenhuma outra palavra era necessária.

Toquei a tela do meu smartwatch, transferindo para Hiyori os Fichas que eu havia trazido comigo. Em seguida, estendi a mão e segurei sua mão esquerda com a minha direita. Juntos, voltamos o olhar para o mar.

No instante em que nossa pele se tocou, seus dedos apertaram os meus com uma força repentina e desesperada. Ela afrouxou o aperto quase imediatamente, mas a sensação daquele breve e intenso gesto permaneceu de forma inconfundível na palma da minha mão.

O apito estrondoso do navio ecoou sobre as águas. Não era um som que anunciava um fim, mas um começo.

Eu podia acreditar nisso?

Eu chegaria a conhecer o amor como um estudante comum do ensino médio e continuaria a crescer a partir dessa experiência?

Serei capaz de mudar?

Das profundezas escuras e turvas de águas invisíveis, algo ergueu a cabeça.

Quando eu tivesse aprendido tudo o que havia para aprender sobre essa nova emoção, talvez soltasse, sem hesitação, a mão que agora segurava.

Eu simplesmente desejo isso.

Conhecimento.

Experiência.

Memórias.

Eu queria absorver tudo isso para dentro de mim, transformá-lo em minha própria carne e sangue.

Tudo é por minha causa.

Cada ação que tomo é por mim, e somente por mim.

Sempre foi assim, e sempre será assim—

Isso, com certeza, nunca mudará até o dia da minha morte.

(N: Na frase “Das profundezas escuras e turvas de águas invisíveis, algo ergueu a cabeça.”, a palavra “algo” foi destacada porque o texto original utiliza a forma em katakana (ナニか) em vez da grafia comum (何か). Esse recurso confere à palavra uma ênfase incomum e inquietante.)

*

Já eram 19h30, e o exame especial finalmente havia chegado ao fim. Como os resultados seriam anunciados ao ar livre, desembarcamos do navio de cruzeiro e aguardávamos na ilha desabitada. Tínhamos liberdade para esperar onde quiséssemos.

Em breve, o pequeno barco enviado para buscar os alunos que não haviam alcançado o objetivo retornaria ao píer.

Com o peito apertado por uma ansiedade inquietante e persistente, eu aguardava vê-lo descer daquela embarcação.

Escondida entre as árvores próximas, mantinha os olhos fixos no cais. Eu deveria simplesmente me aproximar e cumprimentá-lo normalmente. Mas não conseguia. Não depois de ouvir, por acaso, aquelas palavras inacreditáveis que Yoshida-kun disse a Hashimoto-kun mais cedo.

“Aquele cara foi salvar a Shiina, preparado para abrir mão da própria vitória. Eu não consegui impedi-lo.”

Essas palavras ficaram presas no fundo da minha mente, recusando-se a desaparecer. Continuavam ecoando sem parar.

Por quê?

Por qual motivo?

Apenas para salvar a Shiina-san?

Por que ele faria uma coisa dessas?

Eu não conseguia entender.

Não… talvez eu simplesmente não quisesse entender.

Eu sabia, é claro, que Ayanokoji-kun e Shiina-san eram companheiros de leitura. Sabia que frequentemente se encontravam na biblioteca.

Mas esse fato nunca pesou muito em minha mente. Eles eram apenas amigos. Eu sempre presumi que não eram nada além disso. Mas agora, tudo parecia diferente.

Como líder de uma turma que precisava apresentar resultados o mais rápido possível, obter uma colocação expressiva neste Exame Especial também deveria ser um dos objetivos de Ayanokoji-kun.

E, ainda assim… ele abriu mão de tudo isso apenas para salvar Shiina-san. Seria fácil encarar isso apenas como a atitude de alguém ajudando uma amiga.

Até mesmo eu teria corrido para ajudar sem hesitar se um dos meus colegas de classe estivesse em apuros.

Mas Ayanokoji-kun não é como eu. A razão que consegui imaginar… A única razão que consegui imaginar era…

…Porque ela é uma aluna excepcional.

Ayanokoji-kun quer que as quatro turmas compitam em condições iguais. Por isso Shiina-san é necessária—

Eu entendo, só pode ser isso.

Não. Não era isso de forma alguma.

Aquilo significava que Shiina-san não era apenas uma simples amiga para ele. Eu não queria acreditar nisso.

Mas a cena que de repente saltou diante dos meus olhos me apresentou uma realidade cruel.

Ayanokoji-kun foi o primeiro a descer do barco, passando do piso instável da embarcação para a terra firme. Em seguida, ele se virou e segurou a mão de Shiina-san, ajudando-a a desembarcar com gentileza.

Havia um leve traço de culpa em sua expressão, mas, por trás dele, ela parecia inegavelmente feliz. Radiante, até.

Eu pensei que fosse a Karuizawa-san.

Acreditei que, se eu a tirasse do caminho, seria eu quem estaria ao lado de Ayanokoji-kun. Mas eu estava errada. A pessoa que eu realmente… Precisava afastar… Era você, não era?

— Shiina… Hiyori-san.

O nome escapou dos meus lábios em um murmúrio quase inaudível.

Pesadamente.

Sombrio.

Profundamente.

Como uma lâmina abrindo uma cicatriz recente em meu coração, gravei aquele nome dentro de mim. Naquele momento, eu soube… Não havia mais como controlar essa emoção—

 

FIM DO VOLUME

Ainda hoje postarei o posfácio e as ilustrações das turmas do 3° Ano.

Sobre as SS’s vou postar domingo.

Aqui vai uma indicação de Novel para ler enquanto aguarda o próximo volume:

Reverend Insanity

Nota do tradutor: Apesar da história ser bem diferente de COTE, o protagonista de Reverend é inteligente, meticuloso e amoral, como a sinopse indica.

Já cliquem no Link acima e deixem a página aberta para lerem mais tarde, deem um chance a essa novel, é muito boa!

Para quem quiser comprar o livro físico da novel, pode entrar nesse (Link)

Sinopse: A história de um vilão, Fang Yuan, que renasceu 500 anos atrás com a Cigarra da Primavera e do Outono que ele refinou meticulosamente. Com sua profunda sabedoria, batalha e experiências de vida, ele procura superar seus inimigos com habilidade e inteligência! Implacável e amoral, ele não precisa se conter enquanto persegue seus objetivos finais. Em um mundo de crueldade onde se cultiva usando Gu – criaturas mágicas do mundo – Fang Yuan deve se erguer acima de todos com seu próprio poder.

 

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